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A COVID-19 afeta a memória?

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Uma preocupação crescente quanto aos pacientes que sobrevivem a infecções por SARS-CoV-2 (COVID-19), mesmo quando não há necessidade de hospitalização, tem sido as sequelas que alguns sobreviventes têm manifestado 😧. Dentre essas sequelas, se encontram possíveis problemas de memória. Uma pesquisa 🔍 realizada na Noruega 🇳🇴 procurou investigar se a COVID afeta a memória através de auto-relatos de problemas de memória (também conhecidos como queixas subjetivas de memória) oito meses após a infecção.

A pesquisa contou com três grupos de participantes: 1) grupo com exames laboratoriais positivos para COVID-19; 2) grupo com exames laboratoriais negativos para COVID-19; 3) grupo de participantes não-testados selecionados aletoriamente da população norueguesa. Todos os participantes foram acompanhados por oito meses, não sendo reportados dados de participantes hospitalizados. Foram acompanhados 13,001 adultos 👥.

Dentre as informações coletadas 📋️ pelos pesquisadores se encontram: dados demográficos, dados sobre condições médicas subjacentes e sintomas, dados relacionados com a saúde e qualidade de vida, queixas sobre problemas de memória e, dados sobre confundidores conhecidos relacionados à problemas de memória. Os pesquisadores fizeram análises estatísticas ajustadas para que potenciais confundidores (como idade e outros fatores relacionados à problemas de memória) não afetassem significativamente os resultados. Mas afinal, o que os pesquisadores encontraram? 🤔

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Mais participantes que testaram positivo para COVID-19 apresentaram queixas de problemas de memória (11% dos participantes do grupo) do que participantes que testaram negativo (4%) e participantes sem testagem para COVID-19 (2%) 😧. Além disso, os participantes que testaram positivo relataram terem problemas relacionados à concentração (12% do grupo) e terem piorado sua condição de saúde se comparado a um ano antes (41% do grupo) 😱.

Precisamos de novas pesquisas sobre o tema, mas o recado que fica é se cuidem❗ É melhor se proteger, o máximo possível, do que arriscar 😉. E tomem vacinas 💉

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

SØRAAS, Arne et al. Self-reported Memory Problems 8 Months After COVID-19 Infection. JAMA Network Open, v. 4, n. 7, p. e2118717-e2118717, 2021.

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Manipulando e inflando a confiança de reconhecimento

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

Seria possível inflar a confiança no reconhecimento? 🤔 Como isso poderia ser feito em  laboratório? 🤔 Um conjunto de experimentos publicados por Smalarz e Wells (2020) mostraram que sim! Não é novidade que a confiança é uma questão problemática, e já abordamos isso em várias postagens aqui no blog (como A questão da confiança e os testemunhos oculares; A questão da confiança e os testemunhos oculares: Vale a inicial?; Repensando as evidências de testemunhas oculares por meio do DNA). A questão da confiança é especialmente, mas não apenas, problemática na esfera judiciário-criminal ⚖ (pense no caso das fake e  junk news por exemplo 😉) já que a confiança que as pessoas expressam em suas recordações é utilizadas informalmente e formalmente como uma espécie de índice de acurácia dessas memórias (veja nossa postagem 🔗 A questão da confiança e os testemunhos oculares: Vale a inicial? para mais detalhes). Mas o que o trabalho de Smalarz e Wells (2020) 🔍 tem de tão interessante? 🤔

O trabalho 🔍 consegue demonstrar através de experimentos bem controlados que múltiplos feedbacks aumentaram, significativamente, mais a confiança no reconhecimento do que apenas uma ou nenhuma dose de feedback 😱🤯. E isso é importante justamente porque no nosso dia a dia nos recebemos várias informações diretas ou indiretas que nos apontam para a possibilidade de estarmos certos quanto a uma recordação ou não. Ao longo do tempo, essas informações/feedbacks podem ir se acumulando ⏳ e gerando distorções a ponto de termos inclusive falsas memórias de alta confiança (veja a nossa discussão da nossa postagem sobre 🔗Memórias flashbulb e falsas memórias 😉). Mas como os pesquisadores do estudo chegaram nesses resultados? 🤔

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Eles fizeram dois experimentos 🔍🧩 nos quais os participantes foram separados em vários grupos que poderiam ou não receber feedbacks sobre suas respostas. Nos dois experimentos os participantes assistiam a um vídeo exibindo um suspeito trocando sua bagagem com a de outro passageiro, logo depois os participantes fizeram uma tarefa de reconhecimento 🆔 (e responderam algumas perguntas) com fotos de seis pessoas que se encaixavam na descrição do suspeito. No primeiro experimento, os participantes poderiam receber feedbacks de reconhecimentos corretos através de outra co-testemunha, um feedback vago do experimentador (do tipo “você foi uma boa testemunha” 💬) e/ou um feedback baseado em inferência (em que a testemunha era levada a acreditar que sua escolha tinha sido correta, manipulando suas expectativas sobre boas testemunhas serem reconvocadas para fazer um novo reconhecimento). No experimento dois, os participantes poderiam receber os feedbacks (dos mesmos tipos) após reconhecimentos incorretos.

O estudo 🔍 sugere que feedbacks múltiplos e repetidos 🔁 podem distorcer índices importantes de reconhecimento, como a confiança (inflando-a). A distorção gerada por esses feedbacks, ao longo do tempo, pode ser uma das explicações para a quebra da relação entre a confiança e a acurácia de memórias observadas, por exemplo, nos testemunhos realizados diante de um juris que geralmente ocorrem muitos meses (ou anos) ⏳ após o ocorrido (para uma discussão mais aprofundada veja a nossa postagem 🔗A questão da confiança e os testemunhos oculares). Por isso, é importantíssimo que evidencias de memória sejam coletadas e preservadas com rigor e que a confiança emitida no testemunho inicial seja utilizada ao longo de todo o processo ❗ (veja a discussão em Repensando as evidências de testemunhas oculares por meio do DNA) 📌.

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica principal utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

SMALARZ, Laura; WELLS, Gary L. Do Multiple Doses of Feedback Have Cumulative Effects on Eyewitness Confidence?. Journal of Applied Research in Memory and Cognition, v. 9, n. 4, p. 508-518, 2020.