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A COVID-19 afeta a memória?

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Uma preocupação crescente quanto aos pacientes que sobrevivem a infecções por SARS-CoV-2 (COVID-19), mesmo quando não há necessidade de hospitalização, tem sido as sequelas que alguns sobreviventes têm manifestado 😧. Dentre essas sequelas, se encontram possíveis problemas de memória. Uma pesquisa 🔍 realizada na Noruega 🇳🇴 procurou investigar se a COVID afeta a memória através de auto-relatos de problemas de memória (também conhecidos como queixas subjetivas de memória) oito meses após a infecção.

A pesquisa contou com três grupos de participantes: 1) grupo com exames laboratoriais positivos para COVID-19; 2) grupo com exames laboratoriais negativos para COVID-19; 3) grupo de participantes não-testados selecionados aletoriamente da população norueguesa. Todos os participantes foram acompanhados por oito meses, não sendo reportados dados de participantes hospitalizados. Foram acompanhados 13,001 adultos 👥.

Dentre as informações coletadas 📋️ pelos pesquisadores se encontram: dados demográficos, dados sobre condições médicas subjacentes e sintomas, dados relacionados com a saúde e qualidade de vida, queixas sobre problemas de memória e, dados sobre confundidores conhecidos relacionados à problemas de memória. Os pesquisadores fizeram análises estatísticas ajustadas para que potenciais confundidores (como idade e outros fatores relacionados à problemas de memória) não afetassem significativamente os resultados. Mas afinal, o que os pesquisadores encontraram? 🤔

man love people woman
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Mais participantes que testaram positivo para COVID-19 apresentaram queixas de problemas de memória (11% dos participantes do grupo) do que participantes que testaram negativo (4%) e participantes sem testagem para COVID-19 (2%) 😧. Além disso, os participantes que testaram positivo relataram terem problemas relacionados à concentração (12% do grupo) e terem piorado sua condição de saúde se comparado a um ano antes (41% do grupo) 😱.

Precisamos de novas pesquisas sobre o tema, mas o recado que fica é se cuidem❗ É melhor se proteger, o máximo possível, do que arriscar 😉. E tomem vacinas 💉

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

SØRAAS, Arne et al. Self-reported Memory Problems 8 Months After COVID-19 Infection. JAMA Network Open, v. 4, n. 7, p. e2118717-e2118717, 2021.

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Manipulando e inflando a confiança de reconhecimento

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Seria possível inflar a confiança no reconhecimento? 🤔 Como isso poderia ser feito em  laboratório? 🤔 Um conjunto de experimentos publicados por Smalarz e Wells (2020) mostraram que sim! Não é novidade que a confiança é uma questão problemática, e já abordamos isso em várias postagens aqui no blog (como A questão da confiança e os testemunhos oculares; A questão da confiança e os testemunhos oculares: Vale a inicial?; Repensando as evidências de testemunhas oculares por meio do DNA). A questão da confiança é especialmente, mas não apenas, problemática na esfera judiciário-criminal ⚖ (pense no caso das fake e  junk news por exemplo 😉) já que a confiança que as pessoas expressam em suas recordações é utilizadas informalmente e formalmente como uma espécie de índice de acurácia dessas memórias (veja nossa postagem 🔗 A questão da confiança e os testemunhos oculares: Vale a inicial? para mais detalhes). Mas o que o trabalho de Smalarz e Wells (2020) 🔍 tem de tão interessante? 🤔

O trabalho 🔍 consegue demonstrar através de experimentos bem controlados que múltiplos feedbacks aumentaram, significativamente, mais a confiança no reconhecimento do que apenas uma ou nenhuma dose de feedback 😱🤯. E isso é importante justamente porque no nosso dia a dia nos recebemos várias informações diretas ou indiretas que nos apontam para a possibilidade de estarmos certos quanto a uma recordação ou não. Ao longo do tempo, essas informações/feedbacks podem ir se acumulando ⏳ e gerando distorções a ponto de termos inclusive falsas memórias de alta confiança (veja a nossa discussão da nossa postagem sobre 🔗Memórias flashbulb e falsas memórias 😉). Mas como os pesquisadores do estudo chegaram nesses resultados? 🤔

black spiral staircase
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Eles fizeram dois experimentos 🔍🧩 nos quais os participantes foram separados em vários grupos que poderiam ou não receber feedbacks sobre suas respostas. Nos dois experimentos os participantes assistiam a um vídeo exibindo um suspeito trocando sua bagagem com a de outro passageiro, logo depois os participantes fizeram uma tarefa de reconhecimento 🆔 (e responderam algumas perguntas) com fotos de seis pessoas que se encaixavam na descrição do suspeito. No primeiro experimento, os participantes poderiam receber feedbacks de reconhecimentos corretos através de outra co-testemunha, um feedback vago do experimentador (do tipo “você foi uma boa testemunha” 💬) e/ou um feedback baseado em inferência (em que a testemunha era levada a acreditar que sua escolha tinha sido correta, manipulando suas expectativas sobre boas testemunhas serem reconvocadas para fazer um novo reconhecimento). No experimento dois, os participantes poderiam receber os feedbacks (dos mesmos tipos) após reconhecimentos incorretos.

O estudo 🔍 sugere que feedbacks múltiplos e repetidos 🔁 podem distorcer índices importantes de reconhecimento, como a confiança (inflando-a). A distorção gerada por esses feedbacks, ao longo do tempo, pode ser uma das explicações para a quebra da relação entre a confiança e a acurácia de memórias observadas, por exemplo, nos testemunhos realizados diante de um juris que geralmente ocorrem muitos meses (ou anos) ⏳ após o ocorrido (para uma discussão mais aprofundada veja a nossa postagem 🔗A questão da confiança e os testemunhos oculares). Por isso, é importantíssimo que evidencias de memória sejam coletadas e preservadas com rigor e que a confiança emitida no testemunho inicial seja utilizada ao longo de todo o processo ❗ (veja a discussão em Repensando as evidências de testemunhas oculares por meio do DNA) 📌.

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica principal utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

SMALARZ, Laura; WELLS, Gary L. Do Multiple Doses of Feedback Have Cumulative Effects on Eyewitness Confidence?. Journal of Applied Research in Memory and Cognition, v. 9, n. 4, p. 508-518, 2020.

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Inocentes presos no Brasil: quem são? Como e por que foram e/ou continuam presos?

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Inocentes Presos, esse é o nome da série especial da Folha que busca traçar radiografia das prisões injustas no nosso país e colocar em evidência as injustiças e suas vítimas. Vítimas essas, que conforme apuração realizada por um ano, “são em sua maioria negros e, quase em sua totalidade, pobres”. “Pessoas que tiveram suas vidas interrompidas por até duas décadas foram atiradas de volta à sociedade sem pedidos de desculpas após o reconhecimento dos erros e ficaram marcadas pelo preconceito e pelo medo de voltarem ao inferno.” ❗ 😡 

O trabalho 🔍, importantíssimo, da Folha foi realizado durante 12 meses e começou a ser divulgado no dia 24 de maio desse ano. Em seu levantamento, foram analisados 🔍 cem casos de inocentes encarcerados, realizado diagnóstico dos principais erros que elevaram a essas prisões de inocentes e, contadas as histórias dessas cem pessoas. O levantamento realizado aponta casos em todo o país 🇧🇷, porém as análises abarcaram mais casos de São Paulo (sede do grupo Folha). As principais causas das prisões injustas foram reconhecimentos realizados de maneira irregular, na contramão das recomendações dos estudos da Psicologia do Testemunho e do próprio Código de Processo Penal Brasileiro. 😟 🤯

Ressalto que embora a série do grupo Folha se concentre nos cem casos levantados, o número é apenas uma pequena amostragem da quantidade real de inocentes condenados, pois, conforme apontam as reportagens, há falta de transparência das nossas instituições e os erros ocorridos nessas condenações injustas não são reconhecidos oficialmente. 😱

Deixo aqui, o meu convite para que você veja a série de reportagens, os vídeos 🎞  relacionados à série e veja 👀, também, as histórias das pessoas inocentes que foram condenadas injustamente:

🔗 Falhas em reconhecimento alimentam máquina de prisões injustas de negros e pobres no Brasil

🔗 Sem investigação, inquéritos de 24 horas turbinam prisões de inocentes em SP

🔗 Sem banco de dados unificado, Brasil ainda prende inocentes por erro em identificação

🔗 Condenado apenas com base em delação desmentida, trabalhador rural segue preso há sete anos em SP

🔗 Vítimas de prisões injustas têm indenizações negadas, prejuízo financeiro e sequelas psicológicas

❗ Playlist da série no YouTube: https://www.youtube.com/playlist?list=PLEU7Upkdqe7GsmLbj7xn_J3cFLl8-GdZz

📌 Veja cem histórias de prisões injustas no país

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Memórias flashbulb e falsas memórias

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Talvez você tenha alguma recordação vívida do 11 de Setembro de 2001 ou da explosão da espaçonave Challenger 🚀 ou talvez você seja muito novo(a)👶 para se lembrar de algum desses eventos. É comum encontrarmos pessoas que dizem terem recordações bem vívidas sobre pelo menos um desses eventos (especialmente se você for estadunidense e um pouquinho mais velho). Essas pessoas, também, dizem ter alta confiança  ☑︎  nas recordações relacionadas a esses eventos e alguns até chegam a dizer que são coisas que eles nunca esquecerão. Mas será mesmo? E que tipo de memória é esse? 🤔  

Esse tipo de recordação é também conhecido como flashbulb memories (algo como memórias em flash 📸 em uma tradução mais livre para o nosso português). Essas memórias envolvem eventos públicos (como assassinatos famosos, grandes eventos e desastres nacionais) que nos são comunicados por terceiros e para os quais formamos uma memória autobiográfica (i.e., memórias que envolvem o próprio indivíduo que as conta) sobre as circunstâncias relacionadas ao conhecimento desses eventos. Elas não são, contudo, memórias formadas por termos experienciado em “primeira mão” os eventos ou sobre os fatos envolvidos nessas memórias (por exemplo: a Challenger 🚀 explodiu pouco mais de um minuto após sua decolagem). Embora a maioria dos estudos realizados investiguem eventos públicos negativos, há alguns que investigam eventos considerados, em geral, positivos.

Team Teamwork Brainstorming Hand  - geralt / Pixabay
geralt / Pixabay

As memórias flashbulb são caracterizadas pela alta confiança ☑︎ que persiste mesmo que a consistência do relato de memória entre em declínio, ou seja, as pessoas permanecem altamente confiantes nas suas recordações relacionadas às memórias flashbulb mesmo que com o passar do tempo vários erros, omissões e inconstâncias no relato de memória apareçam 😟. Isso ocorre de maneira diferente com as nossas memórias autobiográficas “cotidianas” que têm sua confiança de relato afetada junto com a consistência desses relatos. Mas por que isso ocorre? 🤔

A natureza complexa do aprendizado de eventos públicos reais dificulta a realização de  estudos em laboratórios 🔍🧩. Devido a essa natureza pode haver uma ampla gama de diferenças individuais em como os mecanismos relacionados podem ser acionados 🤯. No entanto, algumas tentativas de explicação têm sido propostas como a sua relação com a identidade social (as pessoas ficam mais confiantes em suas memórias flashbulb quando sentem um vínculo social com as figuras centrais envolvidas nessa memória); a vivacidade e grau de elaboração do evento e; a extensão das “repetições” 🔁 do evento relacionadas à atenção midiática 📻 📺 🎞 🎬.  A cobertura midiática 📺 do evento é um fator importante porque a mídia garante uma exposição extensa ⏳ e ampla e, ao fazer isso, pode homogeneizar eventuais diferenças individuais na forma como o evento é processado e recordado.

Portanto, as memórias flashbulb são aquelas memórias autobiográficas, relacionadas à eventos públicos, em que nós nos mantemos altamente confiantes da veracidade de seus detalhes apesar da queda da acurácia e consistência desses detalhes ao longo do tempo 📌. Logo, em relatos de memórias flashbulb é mais comum a manifestação de falsas memórias com alta confiança ❗ 😱 

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica principal (um artigo de revisão) utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

HIRST, William; PHELPS, Elizabeth A. Flashbulb Memories. Current directions in psychological science, v. 25, n. 1, p. 36, 2016.

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Repensando as evidências de testemunhas oculares por meio do DNA

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Poucas pessoas questionam o fato de que, de maneira geral, quaisquer evidências forenses podem ser contaminadas, no entanto, pouca ou nenhuma providência é tomada para a preservação de testemunhos de memória 🤔. No caso de evidências de DNA, casos de contaminação e de condenação indevida de inocentes são raras, devido ao cuidado rígido para se evitar contaminações e aos padrões estritos de interpretação dessas evidências 📌. Infelizmente, isso geralmente não ocorre com testemunhas oculares e o número de condenações indevidas de inocentes relacionada a esse tipo de evidência é grande 😟 (Vale a apena dar uma olhadinha 👀 nesse post 😉: “O DNA da justiça, o Innocence Project e os testemunhos).

Diferentemente das evidencias de DNA, em que a possibilidade de contaminação é conhecida até mesmo pelo público leigo, as evidencias de testemunhos oculares são geralmente tomados como uma recordação precisa de um registro realizado com semelhante precisão 📹 📷  (como uma gravação de uma câmera, que pode ser reproduzido a qualquer momento sem falhas 🔗). No entanto, como já discutimos em postagens passadas, nossas memórias estão sujeitas à inúmeras falhas, intrusões e omissões (veja “Os sete pecados da memória”, para ter uma ideia) 🤯. Portanto, diversas mudanças têm de ser realizadas à nível procedimental, instrucional e institucionais para que tais evidências sejam utilizadas de acordo com as suas reais potencialidades e limitações (tratamos do assunto na referência em português ao final desse post 🔍). É importante ter em mente que o fato de uma evidência ser suscetível a contaminações não torna essa evidência automaticamente inutilizável, mas significa que essa evidência só é adequada se não foi suficientemente comprometida por contaminações ❗

Dna Genetics Molecule Biology  - liyuanalison / Pixabay
liyuanalison / Pixabay

 Um aspecto interessante das provas de DNA 🧬 é que os resultados das testagens podem ser inconclusivos mesmo que a evidência não seja contaminada e que procedimentos de testagem adequados sejam seguidos. E isso pode acontecer por uma série de motivos, como degradação do DNA (de forma que apenas uma parte do perfil genético é obtido). Evidências de DNA costumam acompanhar um indicador do quão definitiva é a evidência (i.e., a chance daquela evidência genética corresponder ao DNA do suspeito). No caso dos testemunhos, infelizmente, não costuma ser bem aceito que a testemunha apresente dúvidas quanto ao suspeito e/ou que seu testemunho seja inconclusivo 😟. Isso é bastante prejudicial pois o testemunho deve ser apenas uma das evidências para uma investigação/condenação e não a única 🔍🧩. Para testemunhos, pesquisadores referências na área  (como Wixted, Laura Mickes e  Fisher), têm defendido a utilização da confiança como um equivalente do indicador probabilístico do DNA 🧭. Nesse caso, a confiança só é informativa se registrada durante o primeiro testemunho do depoente (veja a nossa discussão sobre o assunto nos posts “A questão da confiança e os testemunhos oculares” e “A questão da confiança e os testemunhos oculares: Vale a inicial?”).

Portanto, podemos utilizar testemunhos de memória, com segurança, quando medidas foram tomadas para controlar a contaminação das evidências, procedimentos adequados são seguidos e tomando a confiança inicial da testemunha (quanto ao ocorrido) em consideração ❗📌

Voltamos em breve! 😉 Na nossa referência em português, vocês encontrarão lá uma discussão mais aprofundada, além de avaliações e sugestões relacionadas a essas questões levando em consideração a situação do sistema de justiça criminal brasileiro. Já na nossa referência em inglês vocês encontrarão uma discussão aprofundada sobre a confiabilidade dos testemunhos (e mais detalhes sobre a analogia com as evidências de DNA). Você consegue ter acesso aos artigos em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referências bibliográficas:

SOUSA, Weslley Santos; DE FARIA SANTOS, Matheus Philippe; JAEGER, Antônio. Aspectos teóricos e implicações práticas da conformidade de memória: uma revisão. Revista Psicologia em Pesquisa, v. 14, n. 3, p. 152-172, 2020.

WIXTED, John T.; MICKES, Laura; FISHER, Ronald P. Rethinking the reliability of eyewitness memory. Perspectives on Psychological Science, v. 13, n. 3, p. 324-335, 2018.

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6 crenças incorretas sobre o funcionamento da memória

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Nossas crenças sobre o funcionamento da memória podem ter amplas implicações. Um estudo 🔍 buscou investigar crenças errôneas sobre o funcionamento da memória com uma amostra representativa (isto é, com um grupo de pessoas que reflete as características de uma população-alvo maior) da população estadunidense 🇺🇲. O grau de concordância com as crenças foi investigado através de entrevistas por chamadas telefônicas 🕿. As respostas dos entrevistados foram comparadas  com a opinião de especialistas e, também, de acadêmicos ligados à Psicologia. Mas quais implicações poderiam ser essas? 🤔

Simons e Chabris, os autores da pesquisa, nos oferecem algumas situações ilustrativas: “… a mídia confunde o esquecimento normal e a distorção inadvertida da memória com engano intencional, os jurados emitem veredictos baseados em intuições falhas sobre a precisão e confiança do testemunho, e os alunos não entendem o papel da memória na aprendizagem”. Dessas situações, talvez os impactos mais danosos possam ser encontrados nas questões envolvendo as esferas judiciário-criminal ⚖ (conforme já indicamos em várias postagens no nosso blog 😉). Vamos então aos resultados?

Os resultados da pesquisa apontam que a grande maioria das pessoas possuem crenças sobre o funcionamento da memória que vão na contramão  de consensos científicos já estabelecidos a décadas 🤯. E isso é perigoso! 😱 Conforme apontam os autores, “a prevalência de crenças errôneas no público em geral implica que equívocos semelhantes provavelmente são comuns entre os jurados” 😧. Os resultados também apontam para a necessidade de uma melhor comunicação e democratização do conhecimento científico relacionado à memória 📝 💬. Mas quais seriam essas crenças?

clear light bulb placed on chalkboard
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As principais crenças, investigadas e reportadas pelos pesquisadores no artigo de 2011, foram:

  1. Amnésia 🆔: 82,7% dos entrevistados concordaram que “as pessoas que sofrem de amnésia geralmente não conseguem se lembrar do próprio nome ou identidade”.
  2. Testemunho confiante ☑︎: 37,1% dos participantes concordaram que “o depoimento de uma testemunha ocular confiante deve ser evidência suficiente para condenar um réu de um crime”.
  3. Memória de vídeo 📹 📷: 63,0% dos entrevistados concordaram que “a memória humana funciona como uma câmera de vídeo, registrando com precisão os eventos que vemos e ouvimos para que possamos revisá-los e inspecioná-los mais tarde”.
  4. Memória permanente ⏺: 47,6% dos entrevistados concordaram que ‘‘ depois de vivenciar um evento e formar uma memória dele, essa memória não muda ’’.
  5. Hipnose 😵: 55,4% dos entrevistados concordaram que ‘‘ a hipnose é útil para ajudar as testemunhas a lembrar com precisão detalhes de crimes ’’.
  6. Eventos inesperados 👀: 77,5% dos entrevistados concordaram que “as pessoas geralmente notam quando algo inesperado entra em seu campo de visão, mesmo quando estão prestando atenção em outra coisa”.

Ressalto, novamente, que essas crenças estão na contramão de consensos científicos estabelecidos a décadas e que a totalidade (ou quase totalidade) dos especialistas consultados na pesquisa deram respostas desaprovam as seis crenças apontadas❗

Infelizmente, desconheço estudo semelhante realizado com a população brasileira. Porém dado o grau de trocas culturais (especialmente se levarmos em conta os filmes e séries 🎬 estadunidenses sobre direito e crimes assistidos no Brasil) e a influência estadunidense sobre o Brasil, as crenças investigadas e a concordância geral da nossa população não devem deferir muito.

Voltaremos a abordar cada uma dessas crenças, com maiores detalhes, em futuras postagens do blog 😉

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica principal utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

SIMONS, Daniel J.; CHABRIS, Christopher F. What people believe about how memory works: A representative survey of the US population. PloS one, v. 6, n. 8, p. e22757, 2011.

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A questão da confiança e os testemunhos oculares: Vale a inicial?

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Nessa nova postagem continuaremos a falar sobre a questão da confiança, dentro da nossa série de postagens sobre a questão do testemunho e da memória 📝. A postagem inicial da série é “O DNA da justiça, o Innocence Project e os testemunhos” e a postagem subsequente é sobre “A questão da confiança e os testemunhos oculares”. Vale a pena você dar uma olhadinha lá 👀 e pegar a indicação de uma série 🎬 do Netflix relacionada à temática 😉

 Como te informamos na postagem anterior, tendemos a utilizar expressões de confiança dos nossos interlocutores 💬 como um índice de veracidade ☑ do relato de memória do nosso interlocutor. E nossas instituições e, especialmente, o sistema de justiça criminal tendem a fazer forte uso tanto de testemunhos de memória quanto da confiança, o que tem levado à problemas como as condenações indevidas de inocentes❗ Entretanto, ainda que desejássemos é muitas vezes inviável deixarmos de utilizar relatos de memória e , mesmo, relatos de expressões de confiança dos nossos interlocutores 💬 em nosso dia a dia e instituições. No entanto, podemos e devemos tomar medidas e precauções quanto a essa utilização, especialmente quando essa utilização pode vir associada à altos custos em quaisquer esferas (individual, coletiva, financeira, etc.)❗

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Tem sido apontado que devemos tomar uma série de precauções com as evidências de memória. Como qualquer outra evidência criminal, elas devem ser coletadas, preservadas e analisadas com um grau mínimo de rigor 📌. Especificamente sobre a questão da confiança, já há uma espécie de consenso de há uma relação positiva entre a confiança expressa por uma testemunha e o desempenho de reconhecimento 📄 . Porém, essa relação é boa apenas quando consideramos o relato de confiança inicial da testemunha (veja o artigo de Wixted e colaboradores indicado nas recomendações para uma discussão aprofundada 🔍) e quando coletado sem que ocorram induções da testemunha 🧭.

Lembro você, aqui, que nossas memórias são maleáveis e a repetição de uma informação e/ou contato com diferentes fontes de relatos tende a gerar alterações/intrusões/omissões em nossas memórias e consequentemente nos nossos relatos subsequentes daquela recordação 😱 🤯. Portanto, é de suma importância que seja registrado o testemunho e o(s) relato(s) de confiança da testemunha nas informações prestadas 📌. Esse relato deve ser registrado e preservado, preferencialmente em formato audiovisual 📹 (embora outros registros também sejam válidos, úteis e possam ser utilizados 📝), de forma que possa ser facilmente reproduzido e consultado posteriormente. Dessa forma podemos mais facilmente evitar/detectar uma parte de más práticas e, também, obtermos uma menor taxa de condenações de inocentes e um sistema de justiça criminal mais confiável. ⚖

Voltamos em breve! 😉 Além do artigo de Wixted e colaboradores, deixo para vocês uma referência em português relacionada à temática. Vocês encontrarão na referência em português uma discussão mais aprofundada, além de avaliações e sugestões relacionadas a essas questões levando em consideração a situação do sistema de justiça criminal brasileiro. Você consegue ter acesso aos artigos em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

SOUSA, Weslley Santos; DE FARIA SANTOS, Matheus Philippe; JAEGER, Antônio. Aspectos teóricos e implicações práticas da conformidade de memória: uma revisão. Revista Psicologia em Pesquisa, v. 14, n. 3, p. 152-172, 2020.

WIXTED, John T. et al. Initial eyewitness confidence reliably predicts eyewitness identification accuracy. American Psychologist, v. 70, n. 6, p. 515, 2015.

Publicado em Falhas de memória, Funcionamento da memória, Memória e testemunho

A questão da confiança e os testemunhos oculares

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Como prometido, publicaremos uma série de postagens sobre a questão do testemunho e da memória 📝. A postagem inicial da série é O DNA da justiça, o Innocence Project e os testemunhos. Vale a pena você dar uma olhadinha lá 👀 e pegar a indicação de uma série 🎬 do Netflix relacionada à temática 😉

Uma questão importante que gerou inúmeros estudos e debates ao longo das últimas décadas é a relação entre a veracidade de testemunhos oculares e o grau de confiança expresso pela testemunha. No nosso dia a dia, tendemos a utilizar expressões de confiança dos nossos interlocutores 💬 como um índice de veracidade ☑ do relato de memória do nosso interlocutor. Nossas instituições e, especialmente, o sistema de justiça criminal também tendem a fazer forte uso tanto de testemunhos de memória quanto da confiança como um indicador da veracidade desses relatos ❗ Esse uso, especialmente quando acompanhado de más práticas diversas, pode ter consequências sérias (como o encarceramento e morte de inocentes) 😟.

Conforme relatamos em nossa postagem inicial sobre a temática dos testemunhos, uma grande quantidade de inocentes foi condenada com a utilização de testemunhos de alta confiança emitidos durante os julgamentos ☹. Essas condenações destroem a vida do inocente e, de familiares e pessoas próximas a ele, além de impossibilitarem que os verdadeiros culpados sejam punidos e a justiça seja feita ⚖.

calm well dressed male standing near window at home
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Talvez você esteja se perguntando, mas por que exatamente ocorrem esses problemas? 🤔 Infelizmente, nossa memória não é como uma máquina filmadora ou fotográfica 📹 📷 e nossas recordações estão sujeitas a influências internas e externas das mais diversas 🤯. Vou te dar alguns exemplos: à cada vez que uma memória é contada, tendemos a expressar maior confiança sobre o que estamos dizendo; se uma outra pessoa, veículo (como os de imprensa) ou instituições nos contam uma história (e especialmente se a “repetem” ao longo do tempo e/ou contam a história variando os formatos) tendemos a apresentar recordações sobre aquele evento mais homogêneas com o que está sendo mais repetido/enfatizado 😱. Imagine os efeitos disso para crimes de alta repercussão (por exemplo): ao longo do tempo até o dia do julgamento (especialmente considerando a lentidão que geralmente o processo todo leva) há uma infinidade de oportunidades de modificação da memória da testemunha e da confiança dela nessa recordação❗ Isso para ficar só em poucos exemplos 🤯. Ao longo das próximas postagens trarei mais exemplos e discutirei em mais detalhes essas problemáticas. 😉 Por hoje, ficamos por aqui.

Voltamos em breve! 😉 Hoje, deixo para vocês uma referência em português relacionada à temática. Vocês encontrarão lá uma discussão mais aprofundada, além de avaliações e sugestões relacionadas a essas questões levando em consideração a situação do sistema de justiça criminal brasileiro. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência:

SOUSA, Weslley Santos; DE FARIA SANTOS, Matheus Philippe; JAEGER, Antônio. Aspectos teóricos e implicações práticas da conformidade de memória: uma revisão. Revista Psicologia em Pesquisa, v. 14, n. 3, p. 152-172, 2020.

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O DNA da justiça, o Innocence Project e os testemunhos

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Hoje venho aqui para te indicar uma minissérie 🎬  estadunidense 🇺🇸 mostra e discute crimes reais que resultaram em condenações de inocentes. No Brasil 🇧🇷, a minissérie foi para o streaming  (você consegue encontrar no Netflix 😉) no ano passado com o nome de “O DNA da Justiça” e nos EUA como “The Innocence Files”. Ela e se baseia no trabalho da organização estadunidense Innocence Project, fundada em 1992, que atua na tentativa de exonerar cidadãos inocentes que foram  condenados injustamente. Para tanto, a organização faz uso, dentre outras técnicas e procedimentos, de testagens de DNA 🧬 e, também, defende reformas no sistema de justiça criminal de forma a prevenir futuras injustiças ⚖.

A minissérie tem 9 episódios e, a temática da memória e do testemunho está presente em todos os episódios já que os sistemas de justiça criminal fazem grade uso de evidências testemunhais. Especificamente, destaco os episódios 4 – Testemunha: O assassinato de Donald Sarpy; 5 – Testemunha: Os julgamentos de Franky Carrillo; 6 – Testemunha: Construindo lembranças e; 7 – Promotoria: Lugar errado, hora errada; em que a temática é abordada em maior profundidade. Logo, logo iniciaremos uma série de postagens sobre a questão do testemunho e da memória. Então, esses episódios podem servir como uma boa introdução 😉 Você pode ver o trailer da minissérie logo abaixo:

No Brasil 🇧🇷, desde dezembro 2016, existe uma associação sem fins lucrativos (O Innocene Project Brasil) que integra a Innocence Network. Conforme a associação, a missão deles é “buscar reverter condenações de inocentes pela Justiça brasileira” e “provocar o debate sobre as causas desse fenômeno e propor soluções para prevenir a sua ocorrência”.

Espero que iniciativas do tipo tenham sucesso e que os sistemas de justiça criminal sejam reformados de forma a evitar condenações de inocentes ⚖. O custo social de condenar o inocente e deixar o verdadeiro culpado solto é grande, especialmente em casos de crimes hediondos‼ Além disso, a pessoa inocente condenada injustamente têm sua vida, a dos familiares e amigos próximos destruída com toda a injustiça ☹. Pense nisso…

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode acessar a página da série no Netflix utilizando o link disponibilizado nas referências. Além disso, por lá você consegue acessar os sites do Innocence Project e O Innocence Project Brasil. 😉

Até breve 👋


Referências:

O DNA da justiça. Disponível em: https://www.netflix.com/br/title/80214563

Innocence Project. Disponível em: https://innocenceproject.org/

Innocence Project Brasil. Disponível em: https://www.innocencebrasil.org/

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Memória e o efeito de foco na arma (parte 3)

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Continuando as postagens anteriores: Memória e o efeito de foco na arma (parte 1) e Memória e o efeito de foco na arma (parte 2), continuaremos discutindo o efeito foco na arma.  Se você ainda não leu as duas primeiras postagens, é só clicar para dar uma olhadinha 😉

Você talvez esteja se perguntando: Mas então, como fica a questão? 🤔  Nenhuma das duas hipóteses foram definitivamente comprovadas e ambas permanecem como alternativas explicativas para os prejuízos de desempenho e as dificuldades de memória relacionadas. Ambas as hipóteses possuem algum grau de comprovação utilizando várias metodologias de pesquisa, porém mais estudos cada vez mais diversificados e complexos são necessários para entendermos melhor a questão 📚 🔍🧩. Algumas evidencias, no entanto, se destacam e apontam caminhos e possibilidades 🧭.

Como os efeitos e situações para ambas as hipóteses explicativas (alerta relacionado à  arma/presença de itens não-usuais) são de certa forma parecidos, têm-se considerado que passemos a nos referir ao efeito de foco na arma como efeito de saliência de objeto (em inglês: object saliency effect) ou foco de característica saliente (em inglês: salient feature focus) 📌.

photo of man holding rifle
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A meta-análise (que é uma técnica estatística de integração de resultados de vários estudos diferentes e é considerado um padrão ouro de evidências 😉) de Fawcett e colaboradores, observou que ambas as hipóteses apresentam efeitos relevantes. De acordo com os autores, os resultados sugerem a existência de um mecanismo subjacente comum (por exemplo, a excitação fisiológica positiva e negativa) ou que a excitação fisiológica relacionada à presença de armas 😟 e a situação/presença de objeto incomum 😦 afetariam o desempenho de memória (isto sugeriria que o efeito conhecido como foco de arma seja uma espécie de  propriedade emergente dessa interação).

Mesmo que não descubramos o porquê tão cedo, temos de estar atentos aos impactos relacionados ao efeito nos testemunhos e melhor preparamos os nossos sistemas de investigação e justiça para lidar com tais impactos 💡. É essencial, também, que os jurados saibam sobre os potenciais impactos desse efeito, de forma a estarem em melhores condições de avaliarem o conjunto de evidências apresentadas e para que se alcance sentenças mais justas 👩‍⚖️ 👨‍⚖️.

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica principal utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

FAWCETT, Jonathan M. et al. Of guns and geese: A meta-analytic review of the ‘weapon focus’ literature. Psychology, Crime & Law, v. 19, n. 1, p. 35-66, 2013.