Publicado em Falhas de memória, Funcionamento da memória, Memória e testemunho

Manipulando e inflando a confiança de reconhecimento

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

Seria possível inflar a confiança no reconhecimento? 🤔 Como isso poderia ser feito em  laboratório? 🤔 Um conjunto de experimentos publicados por Smalarz e Wells (2020) mostraram que sim! Não é novidade que a confiança é uma questão problemática, e já abordamos isso em várias postagens aqui no blog (como A questão da confiança e os testemunhos oculares; A questão da confiança e os testemunhos oculares: Vale a inicial?; Repensando as evidências de testemunhas oculares por meio do DNA). A questão da confiança é especialmente, mas não apenas, problemática na esfera judiciário-criminal ⚖ (pense no caso das fake e  junk news por exemplo 😉) já que a confiança que as pessoas expressam em suas recordações é utilizadas informalmente e formalmente como uma espécie de índice de acurácia dessas memórias (veja nossa postagem 🔗 A questão da confiança e os testemunhos oculares: Vale a inicial? para mais detalhes). Mas o que o trabalho de Smalarz e Wells (2020) 🔍 tem de tão interessante? 🤔

O trabalho 🔍 consegue demonstrar através de experimentos bem controlados que múltiplos feedbacks aumentaram, significativamente, mais a confiança no reconhecimento do que apenas uma ou nenhuma dose de feedback 😱🤯. E isso é importante justamente porque no nosso dia a dia nos recebemos várias informações diretas ou indiretas que nos apontam para a possibilidade de estarmos certos quanto a uma recordação ou não. Ao longo do tempo, essas informações/feedbacks podem ir se acumulando ⏳ e gerando distorções a ponto de termos inclusive falsas memórias de alta confiança (veja a nossa discussão da nossa postagem sobre 🔗Memórias flashbulb e falsas memórias 😉). Mas como os pesquisadores do estudo chegaram nesses resultados? 🤔

black spiral staircase
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Eles fizeram dois experimentos 🔍🧩 nos quais os participantes foram separados em vários grupos que poderiam ou não receber feedbacks sobre suas respostas. Nos dois experimentos os participantes assistiam a um vídeo exibindo um suspeito trocando sua bagagem com a de outro passageiro, logo depois os participantes fizeram uma tarefa de reconhecimento 🆔 (e responderam algumas perguntas) com fotos de seis pessoas que se encaixavam na descrição do suspeito. No primeiro experimento, os participantes poderiam receber feedbacks de reconhecimentos corretos através de outra co-testemunha, um feedback vago do experimentador (do tipo “você foi uma boa testemunha” 💬) e/ou um feedback baseado em inferência (em que a testemunha era levada a acreditar que sua escolha tinha sido correta, manipulando suas expectativas sobre boas testemunhas serem reconvocadas para fazer um novo reconhecimento). No experimento dois, os participantes poderiam receber os feedbacks (dos mesmos tipos) após reconhecimentos incorretos.

O estudo 🔍 sugere que feedbacks múltiplos e repetidos 🔁 podem distorcer índices importantes de reconhecimento, como a confiança (inflando-a). A distorção gerada por esses feedbacks, ao longo do tempo, pode ser uma das explicações para a quebra da relação entre a confiança e a acurácia de memórias observadas, por exemplo, nos testemunhos realizados diante de um juris que geralmente ocorrem muitos meses (ou anos) ⏳ após o ocorrido (para uma discussão mais aprofundada veja a nossa postagem 🔗A questão da confiança e os testemunhos oculares). Por isso, é importantíssimo que evidencias de memória sejam coletadas e preservadas com rigor e que a confiança emitida no testemunho inicial seja utilizada ao longo de todo o processo ❗ (veja a discussão em Repensando as evidências de testemunhas oculares por meio do DNA) 📌.

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica principal utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

SMALARZ, Laura; WELLS, Gary L. Do Multiple Doses of Feedback Have Cumulative Effects on Eyewitness Confidence?. Journal of Applied Research in Memory and Cognition, v. 9, n. 4, p. 508-518, 2020.

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Memórias flashbulb e falsas memórias

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Talvez você tenha alguma recordação vívida do 11 de Setembro de 2001 ou da explosão da espaçonave Challenger 🚀 ou talvez você seja muito novo(a)👶 para se lembrar de algum desses eventos. É comum encontrarmos pessoas que dizem terem recordações bem vívidas sobre pelo menos um desses eventos (especialmente se você for estadunidense e um pouquinho mais velho). Essas pessoas, também, dizem ter alta confiança  ☑︎  nas recordações relacionadas a esses eventos e alguns até chegam a dizer que são coisas que eles nunca esquecerão. Mas será mesmo? E que tipo de memória é esse? 🤔  

Esse tipo de recordação é também conhecido como flashbulb memories (algo como memórias em flash 📸 em uma tradução mais livre para o nosso português). Essas memórias envolvem eventos públicos (como assassinatos famosos, grandes eventos e desastres nacionais) que nos são comunicados por terceiros e para os quais formamos uma memória autobiográfica (i.e., memórias que envolvem o próprio indivíduo que as conta) sobre as circunstâncias relacionadas ao conhecimento desses eventos. Elas não são, contudo, memórias formadas por termos experienciado em “primeira mão” os eventos ou sobre os fatos envolvidos nessas memórias (por exemplo: a Challenger 🚀 explodiu pouco mais de um minuto após sua decolagem). Embora a maioria dos estudos realizados investiguem eventos públicos negativos, há alguns que investigam eventos considerados, em geral, positivos.

Team Teamwork Brainstorming Hand  - geralt / Pixabay
geralt / Pixabay

As memórias flashbulb são caracterizadas pela alta confiança ☑︎ que persiste mesmo que a consistência do relato de memória entre em declínio, ou seja, as pessoas permanecem altamente confiantes nas suas recordações relacionadas às memórias flashbulb mesmo que com o passar do tempo vários erros, omissões e inconstâncias no relato de memória apareçam 😟. Isso ocorre de maneira diferente com as nossas memórias autobiográficas “cotidianas” que têm sua confiança de relato afetada junto com a consistência desses relatos. Mas por que isso ocorre? 🤔

A natureza complexa do aprendizado de eventos públicos reais dificulta a realização de  estudos em laboratórios 🔍🧩. Devido a essa natureza pode haver uma ampla gama de diferenças individuais em como os mecanismos relacionados podem ser acionados 🤯. No entanto, algumas tentativas de explicação têm sido propostas como a sua relação com a identidade social (as pessoas ficam mais confiantes em suas memórias flashbulb quando sentem um vínculo social com as figuras centrais envolvidas nessa memória); a vivacidade e grau de elaboração do evento e; a extensão das “repetições” 🔁 do evento relacionadas à atenção midiática 📻 📺 🎞 🎬.  A cobertura midiática 📺 do evento é um fator importante porque a mídia garante uma exposição extensa ⏳ e ampla e, ao fazer isso, pode homogeneizar eventuais diferenças individuais na forma como o evento é processado e recordado.

Portanto, as memórias flashbulb são aquelas memórias autobiográficas, relacionadas à eventos públicos, em que nós nos mantemos altamente confiantes da veracidade de seus detalhes apesar da queda da acurácia e consistência desses detalhes ao longo do tempo 📌. Logo, em relatos de memórias flashbulb é mais comum a manifestação de falsas memórias com alta confiança ❗ 😱 

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica principal (um artigo de revisão) utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

HIRST, William; PHELPS, Elizabeth A. Flashbulb Memories. Current directions in psychological science, v. 25, n. 1, p. 36, 2016.

Publicado em Falhas de memória, Memória e testemunho

Repensando as evidências de testemunhas oculares por meio do DNA

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

Poucas pessoas questionam o fato de que, de maneira geral, quaisquer evidências forenses podem ser contaminadas, no entanto, pouca ou nenhuma providência é tomada para a preservação de testemunhos de memória 🤔. No caso de evidências de DNA, casos de contaminação e de condenação indevida de inocentes são raras, devido ao cuidado rígido para se evitar contaminações e aos padrões estritos de interpretação dessas evidências 📌. Infelizmente, isso geralmente não ocorre com testemunhas oculares e o número de condenações indevidas de inocentes relacionada a esse tipo de evidência é grande 😟 (Vale a apena dar uma olhadinha 👀 nesse post 😉: “O DNA da justiça, o Innocence Project e os testemunhos).

Diferentemente das evidencias de DNA, em que a possibilidade de contaminação é conhecida até mesmo pelo público leigo, as evidencias de testemunhos oculares são geralmente tomados como uma recordação precisa de um registro realizado com semelhante precisão 📹 📷  (como uma gravação de uma câmera, que pode ser reproduzido a qualquer momento sem falhas 🔗). No entanto, como já discutimos em postagens passadas, nossas memórias estão sujeitas à inúmeras falhas, intrusões e omissões (veja “Os sete pecados da memória”, para ter uma ideia) 🤯. Portanto, diversas mudanças têm de ser realizadas à nível procedimental, instrucional e institucionais para que tais evidências sejam utilizadas de acordo com as suas reais potencialidades e limitações (tratamos do assunto na referência em português ao final desse post 🔍). É importante ter em mente que o fato de uma evidência ser suscetível a contaminações não torna essa evidência automaticamente inutilizável, mas significa que essa evidência só é adequada se não foi suficientemente comprometida por contaminações ❗

Dna Genetics Molecule Biology  - liyuanalison / Pixabay
liyuanalison / Pixabay

 Um aspecto interessante das provas de DNA 🧬 é que os resultados das testagens podem ser inconclusivos mesmo que a evidência não seja contaminada e que procedimentos de testagem adequados sejam seguidos. E isso pode acontecer por uma série de motivos, como degradação do DNA (de forma que apenas uma parte do perfil genético é obtido). Evidências de DNA costumam acompanhar um indicador do quão definitiva é a evidência (i.e., a chance daquela evidência genética corresponder ao DNA do suspeito). No caso dos testemunhos, infelizmente, não costuma ser bem aceito que a testemunha apresente dúvidas quanto ao suspeito e/ou que seu testemunho seja inconclusivo 😟. Isso é bastante prejudicial pois o testemunho deve ser apenas uma das evidências para uma investigação/condenação e não a única 🔍🧩. Para testemunhos, pesquisadores referências na área  (como Wixted, Laura Mickes e  Fisher), têm defendido a utilização da confiança como um equivalente do indicador probabilístico do DNA 🧭. Nesse caso, a confiança só é informativa se registrada durante o primeiro testemunho do depoente (veja a nossa discussão sobre o assunto nos posts “A questão da confiança e os testemunhos oculares” e “A questão da confiança e os testemunhos oculares: Vale a inicial?”).

Portanto, podemos utilizar testemunhos de memória, com segurança, quando medidas foram tomadas para controlar a contaminação das evidências, procedimentos adequados são seguidos e tomando a confiança inicial da testemunha (quanto ao ocorrido) em consideração ❗📌

Voltamos em breve! 😉 Na nossa referência em português, vocês encontrarão lá uma discussão mais aprofundada, além de avaliações e sugestões relacionadas a essas questões levando em consideração a situação do sistema de justiça criminal brasileiro. Já na nossa referência em inglês vocês encontrarão uma discussão aprofundada sobre a confiabilidade dos testemunhos (e mais detalhes sobre a analogia com as evidências de DNA). Você consegue ter acesso aos artigos em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referências bibliográficas:

SOUSA, Weslley Santos; DE FARIA SANTOS, Matheus Philippe; JAEGER, Antônio. Aspectos teóricos e implicações práticas da conformidade de memória: uma revisão. Revista Psicologia em Pesquisa, v. 14, n. 3, p. 152-172, 2020.

WIXTED, John T.; MICKES, Laura; FISHER, Ronald P. Rethinking the reliability of eyewitness memory. Perspectives on Psychological Science, v. 13, n. 3, p. 324-335, 2018.

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A questão da confiança e os testemunhos oculares: Vale a inicial?

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Nessa nova postagem continuaremos a falar sobre a questão da confiança, dentro da nossa série de postagens sobre a questão do testemunho e da memória 📝. A postagem inicial da série é “O DNA da justiça, o Innocence Project e os testemunhos” e a postagem subsequente é sobre “A questão da confiança e os testemunhos oculares”. Vale a pena você dar uma olhadinha lá 👀 e pegar a indicação de uma série 🎬 do Netflix relacionada à temática 😉

 Como te informamos na postagem anterior, tendemos a utilizar expressões de confiança dos nossos interlocutores 💬 como um índice de veracidade ☑ do relato de memória do nosso interlocutor. E nossas instituições e, especialmente, o sistema de justiça criminal tendem a fazer forte uso tanto de testemunhos de memória quanto da confiança, o que tem levado à problemas como as condenações indevidas de inocentes❗ Entretanto, ainda que desejássemos é muitas vezes inviável deixarmos de utilizar relatos de memória e , mesmo, relatos de expressões de confiança dos nossos interlocutores 💬 em nosso dia a dia e instituições. No entanto, podemos e devemos tomar medidas e precauções quanto a essa utilização, especialmente quando essa utilização pode vir associada à altos custos em quaisquer esferas (individual, coletiva, financeira, etc.)❗

shallow focus photography of man wearing red polo shirt
Photo by Nathan Cowley on Pexels.com

Tem sido apontado que devemos tomar uma série de precauções com as evidências de memória. Como qualquer outra evidência criminal, elas devem ser coletadas, preservadas e analisadas com um grau mínimo de rigor 📌. Especificamente sobre a questão da confiança, já há uma espécie de consenso de há uma relação positiva entre a confiança expressa por uma testemunha e o desempenho de reconhecimento 📄 . Porém, essa relação é boa apenas quando consideramos o relato de confiança inicial da testemunha (veja o artigo de Wixted e colaboradores indicado nas recomendações para uma discussão aprofundada 🔍) e quando coletado sem que ocorram induções da testemunha 🧭.

Lembro você, aqui, que nossas memórias são maleáveis e a repetição de uma informação e/ou contato com diferentes fontes de relatos tende a gerar alterações/intrusões/omissões em nossas memórias e consequentemente nos nossos relatos subsequentes daquela recordação 😱 🤯. Portanto, é de suma importância que seja registrado o testemunho e o(s) relato(s) de confiança da testemunha nas informações prestadas 📌. Esse relato deve ser registrado e preservado, preferencialmente em formato audiovisual 📹 (embora outros registros também sejam válidos, úteis e possam ser utilizados 📝), de forma que possa ser facilmente reproduzido e consultado posteriormente. Dessa forma podemos mais facilmente evitar/detectar uma parte de más práticas e, também, obtermos uma menor taxa de condenações de inocentes e um sistema de justiça criminal mais confiável. ⚖

Voltamos em breve! 😉 Além do artigo de Wixted e colaboradores, deixo para vocês uma referência em português relacionada à temática. Vocês encontrarão na referência em português uma discussão mais aprofundada, além de avaliações e sugestões relacionadas a essas questões levando em consideração a situação do sistema de justiça criminal brasileiro. Você consegue ter acesso aos artigos em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

SOUSA, Weslley Santos; DE FARIA SANTOS, Matheus Philippe; JAEGER, Antônio. Aspectos teóricos e implicações práticas da conformidade de memória: uma revisão. Revista Psicologia em Pesquisa, v. 14, n. 3, p. 152-172, 2020.

WIXTED, John T. et al. Initial eyewitness confidence reliably predicts eyewitness identification accuracy. American Psychologist, v. 70, n. 6, p. 515, 2015.

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A questão da confiança e os testemunhos oculares

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Como prometido, publicaremos uma série de postagens sobre a questão do testemunho e da memória 📝. A postagem inicial da série é O DNA da justiça, o Innocence Project e os testemunhos. Vale a pena você dar uma olhadinha lá 👀 e pegar a indicação de uma série 🎬 do Netflix relacionada à temática 😉

Uma questão importante que gerou inúmeros estudos e debates ao longo das últimas décadas é a relação entre a veracidade de testemunhos oculares e o grau de confiança expresso pela testemunha. No nosso dia a dia, tendemos a utilizar expressões de confiança dos nossos interlocutores 💬 como um índice de veracidade ☑ do relato de memória do nosso interlocutor. Nossas instituições e, especialmente, o sistema de justiça criminal também tendem a fazer forte uso tanto de testemunhos de memória quanto da confiança como um indicador da veracidade desses relatos ❗ Esse uso, especialmente quando acompanhado de más práticas diversas, pode ter consequências sérias (como o encarceramento e morte de inocentes) 😟.

Conforme relatamos em nossa postagem inicial sobre a temática dos testemunhos, uma grande quantidade de inocentes foi condenada com a utilização de testemunhos de alta confiança emitidos durante os julgamentos ☹. Essas condenações destroem a vida do inocente e, de familiares e pessoas próximas a ele, além de impossibilitarem que os verdadeiros culpados sejam punidos e a justiça seja feita ⚖.

calm well dressed male standing near window at home
Photo by Anastasiya Vragova on Pexels.com

Talvez você esteja se perguntando, mas por que exatamente ocorrem esses problemas? 🤔 Infelizmente, nossa memória não é como uma máquina filmadora ou fotográfica 📹 📷 e nossas recordações estão sujeitas a influências internas e externas das mais diversas 🤯. Vou te dar alguns exemplos: à cada vez que uma memória é contada, tendemos a expressar maior confiança sobre o que estamos dizendo; se uma outra pessoa, veículo (como os de imprensa) ou instituições nos contam uma história (e especialmente se a “repetem” ao longo do tempo e/ou contam a história variando os formatos) tendemos a apresentar recordações sobre aquele evento mais homogêneas com o que está sendo mais repetido/enfatizado 😱. Imagine os efeitos disso para crimes de alta repercussão (por exemplo): ao longo do tempo até o dia do julgamento (especialmente considerando a lentidão que geralmente o processo todo leva) há uma infinidade de oportunidades de modificação da memória da testemunha e da confiança dela nessa recordação❗ Isso para ficar só em poucos exemplos 🤯. Ao longo das próximas postagens trarei mais exemplos e discutirei em mais detalhes essas problemáticas. 😉 Por hoje, ficamos por aqui.

Voltamos em breve! 😉 Hoje, deixo para vocês uma referência em português relacionada à temática. Vocês encontrarão lá uma discussão mais aprofundada, além de avaliações e sugestões relacionadas a essas questões levando em consideração a situação do sistema de justiça criminal brasileiro. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência:

SOUSA, Weslley Santos; DE FARIA SANTOS, Matheus Philippe; JAEGER, Antônio. Aspectos teóricos e implicações práticas da conformidade de memória: uma revisão. Revista Psicologia em Pesquisa, v. 14, n. 3, p. 152-172, 2020.

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O DNA da justiça, o Innocence Project e os testemunhos

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Hoje venho aqui para te indicar uma minissérie 🎬  estadunidense 🇺🇸 mostra e discute crimes reais que resultaram em condenações de inocentes. No Brasil 🇧🇷, a minissérie foi para o streaming  (você consegue encontrar no Netflix 😉) no ano passado com o nome de “O DNA da Justiça” e nos EUA como “The Innocence Files”. Ela e se baseia no trabalho da organização estadunidense Innocence Project, fundada em 1992, que atua na tentativa de exonerar cidadãos inocentes que foram  condenados injustamente. Para tanto, a organização faz uso, dentre outras técnicas e procedimentos, de testagens de DNA 🧬 e, também, defende reformas no sistema de justiça criminal de forma a prevenir futuras injustiças ⚖.

A minissérie tem 9 episódios e, a temática da memória e do testemunho está presente em todos os episódios já que os sistemas de justiça criminal fazem grade uso de evidências testemunhais. Especificamente, destaco os episódios 4 – Testemunha: O assassinato de Donald Sarpy; 5 – Testemunha: Os julgamentos de Franky Carrillo; 6 – Testemunha: Construindo lembranças e; 7 – Promotoria: Lugar errado, hora errada; em que a temática é abordada em maior profundidade. Logo, logo iniciaremos uma série de postagens sobre a questão do testemunho e da memória. Então, esses episódios podem servir como uma boa introdução 😉 Você pode ver o trailer da minissérie logo abaixo:

No Brasil 🇧🇷, desde dezembro 2016, existe uma associação sem fins lucrativos (O Innocene Project Brasil) que integra a Innocence Network. Conforme a associação, a missão deles é “buscar reverter condenações de inocentes pela Justiça brasileira” e “provocar o debate sobre as causas desse fenômeno e propor soluções para prevenir a sua ocorrência”.

Espero que iniciativas do tipo tenham sucesso e que os sistemas de justiça criminal sejam reformados de forma a evitar condenações de inocentes ⚖. O custo social de condenar o inocente e deixar o verdadeiro culpado solto é grande, especialmente em casos de crimes hediondos‼ Além disso, a pessoa inocente condenada injustamente têm sua vida, a dos familiares e amigos próximos destruída com toda a injustiça ☹. Pense nisso…

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode acessar a página da série no Netflix utilizando o link disponibilizado nas referências. Além disso, por lá você consegue acessar os sites do Innocence Project e O Innocence Project Brasil. 😉

Até breve 👋


Referências:

O DNA da justiça. Disponível em: https://www.netflix.com/br/title/80214563

Innocence Project. Disponível em: https://innocenceproject.org/

Innocence Project Brasil. Disponível em: https://www.innocencebrasil.org/

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Memória e o efeito de foco na arma (parte 3)

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Continuando as postagens anteriores: Memória e o efeito de foco na arma (parte 1) e Memória e o efeito de foco na arma (parte 2), continuaremos discutindo o efeito foco na arma.  Se você ainda não leu as duas primeiras postagens, é só clicar para dar uma olhadinha 😉

Você talvez esteja se perguntando: Mas então, como fica a questão? 🤔  Nenhuma das duas hipóteses foram definitivamente comprovadas e ambas permanecem como alternativas explicativas para os prejuízos de desempenho e as dificuldades de memória relacionadas. Ambas as hipóteses possuem algum grau de comprovação utilizando várias metodologias de pesquisa, porém mais estudos cada vez mais diversificados e complexos são necessários para entendermos melhor a questão 📚 🔍🧩. Algumas evidencias, no entanto, se destacam e apontam caminhos e possibilidades 🧭.

Como os efeitos e situações para ambas as hipóteses explicativas (alerta relacionado à  arma/presença de itens não-usuais) são de certa forma parecidos, têm-se considerado que passemos a nos referir ao efeito de foco na arma como efeito de saliência de objeto (em inglês: object saliency effect) ou foco de característica saliente (em inglês: salient feature focus) 📌.

photo of man holding rifle
Photo by Maurício Mascaro on Pexels.com

A meta-análise (que é uma técnica estatística de integração de resultados de vários estudos diferentes e é considerado um padrão ouro de evidências 😉) de Fawcett e colaboradores, observou que ambas as hipóteses apresentam efeitos relevantes. De acordo com os autores, os resultados sugerem a existência de um mecanismo subjacente comum (por exemplo, a excitação fisiológica positiva e negativa) ou que a excitação fisiológica relacionada à presença de armas 😟 e a situação/presença de objeto incomum 😦 afetariam o desempenho de memória (isto sugeriria que o efeito conhecido como foco de arma seja uma espécie de  propriedade emergente dessa interação).

Mesmo que não descubramos o porquê tão cedo, temos de estar atentos aos impactos relacionados ao efeito nos testemunhos e melhor preparamos os nossos sistemas de investigação e justiça para lidar com tais impactos 💡. É essencial, também, que os jurados saibam sobre os potenciais impactos desse efeito, de forma a estarem em melhores condições de avaliarem o conjunto de evidências apresentadas e para que se alcance sentenças mais justas 👩‍⚖️ 👨‍⚖️.

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica principal utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

FAWCETT, Jonathan M. et al. Of guns and geese: A meta-analytic review of the ‘weapon focus’ literature. Psychology, Crime & Law, v. 19, n. 1, p. 35-66, 2013.

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Memória e o efeito de foco na arma (parte 2)

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Continuando a postagem anterior: Memória e o efeito de foco na arma (parte 1), há várias tentativas de explicação para o efeito de foco na arma. Se você ainda não leu a primeira parte da postagem, dê uma olhadinha 😉


Por uma outra via de explicação, algum objeto (uma arma, por exemplo) que não é comum dentro do esquema que representa aquele cenário passa a demandar um maior processamento 🧠 e como consequência os demais detalhes periféricos “acabam por serem enfraquecidos”.

Imagine a cena, você está em uma cafeteria e de repente aparece um homem ameaçando matar um refém se não lhe derem dinheiro. No entanto, para a sua surpresa,  esse refém é um perturbado ganso canadense 😯. Acredite você ou não, isso aconteceu no Canadá e dado o absurdo da situação, as pessoas aparentemente gastaram mais tempo prestando atenção no ganso do que no ladrão 🤯.

grayscale photography of duck on water
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Pesquisas 🔍 têm demonstrado que nós tendemos a prestar mais atenção em objetos que são importantes ou tenham algum valor informacional para nós. Quando nós somos surpreendidos, por objetos inesperados nosso foco atencional 🛎 é direcionado para esse objeto e consequentemente as outras informações acabam sendo processadas como que em segundo plano.

De acordo com hipótese de itens não-usuais (unusual item hypothesis), as armas são consideras objetos incomuns em muitos contextos e, consequentemente, não são compatíveis com as nossas expectativas relacionadas aquele contexto. Como consequência da tentativa do nosso cérebro de resolver esse conflito de expectativa, os detalhes periféricos (como o rosto do perpetrador) acabam por não serem adequadamente registrados e acabamos por ter dificuldade em relembrá-los mais tarde 😓.

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica principal utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

FAWCETT, Jonathan M. et al. Of guns and geese: A meta-analytic review of the ‘weapon focus’ literature. Psychology, Crime & Law, v. 19, n. 1, p. 35-66, 2013.

Publicado em Falhas de memória, Funcionamento da memória

Memória e o efeito de foco na arma (parte 1)

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Muitas pessoas acreditam que nossa memória funcione como uma espécie de máquina filmadora 📹 📷 e que nos lembraremos de algo simplesmente porque aquilo é algo importante, porém, a realidade está longe disso. Um efeito de memória curioso que têm despertado atenção de pesquisadores já a algum tempo é o chamado efeito foco na arma (weapon focus no inglês) 🔫. Mas o que seria isso?

Talvez você já conheça alguém ou até mesmo já passou por um assalto à mão armada (por exemplo) :(, e quando precisou dar o testemunho e dizer sobre os detalhes do ocorrido enfrentou certa dificuldade de contar os detalhes periféricos à arma (por exemplo características do local, características da pessoa portanto a arma, dentre outras) 😟 . Essa dificuldade é comum e sua ocorrência pode estar, em parte, relacionada a esse efeito. Mas como isso acontece? 🤔 

pessoa segurando uma arma de  plástico branco
Photo by cottonbro on Pexels.com

Há várias tentativas de explicação para esse efeito e vamos falar sobre elas nessa e nas próximas postagens. Uma dessas hipóteses está ligada ao nível de alerta e à atenção. Pesquisas 🔍 têm sugerido que esse efeito poderia ser uma espécie de efeito colateral do foco atencional diferenciado ocasionado pelo alto nível de alerta relacionado à situação. Quando acontece um assalto à mão armada (por exemplo), a nossa atenção é capturada pela arma devido aos riscos envolvidos e, em decorrência, os detalhes ao redor podem ficar “um tanto quanto desfocados” 😰.

O que “gravamos” 📝 em nossa memória é fortemente dependente do nosso foco atencional! 👀 Até é possível que registremos e recordemos algo que prestamos pouca atenção ou mesmo prestamos nenhuma atenção consciente, todavia esse registro é, constantemente, mais fraco e mais sujeito à erros e omissões. E esses erros e omissões de memória podem ter consequências sérias dependo do contexto (falaremos sobre isso em postagens futuras 😉 ).

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica principal utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

FAWCETT, Jonathan M. et al. Of guns and geese: A meta-analytic review of the ‘weapon focus’ literature. Psychology, Crime & Law, v. 19, n. 1, p. 35-66, 2013.

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Os sete “pecados” da memória

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Tendemos a acreditar e somos socialmente cobrados a ter uma memória imbatível, armazenando uma infinidade de informações e recordando-as sem erros ou omissões, não é mesmo? 🤔 No entanto, infelizmente 😥, a nossa memória não funciona assim. Em nosso dia a dia mesmo coisas muito banais podem com frequência resultar em erros ou experiências de memórias abaixo do esperado 😮. Tais falhas podem ocasionar impactos diversos desde leves (como confundir uma informação e esquecer algo sem grandes implicações) até impactos mais graves como no âmbito jurídico/penal em que falhas podem resultar em falsos testemunhos e na condenação de pessoas inocentes 😟.

O artigo de Schacter, Chiao e Mitchell (2003) nos informa sobre sete “pecados” da memória e suas implicações para o self (você pode conferir o artigo nas referências ao final do post, mas só se você quiser 😉 ). Três desses sete “pecados” são referentes a tipos de esquecimento (a transitoriedade; a distração; o bloqueio), três a diferentes tipos de distorções (atribuição incorreta, a sugestionabilidade; o viés) e um referente a intrusão de memórias (a persistência). Vamos conhecer rapidinho sobre cada um deles 🔍?

Foto por Nathan Cowley em Pexels.com

Os “pecados” do esquecimento são: 1) a perda da acessibilidade da recordação ao longo do tempo (como o simples esquecer de eventos de um passado distante); 2) os lapsos de atenção que resultam em esquecimento (como o esquecer da localização de suas chaves); 3) o bloqueio temporário de recordações (como o fenômeno ponta da língua). Já os “pecados” de distorção seriam: 4) a atribuição incorreta de memória a uma fonte (como confundir um sonho como uma memória de algo que realmente aconteceu); 5) a implantação de memórias sobre coisas que nunca aconteceram (através do uso de questões sugestivas que podem resultar em fenômenos de falsas memórias, por exemplo) e ; 6) o viés, em que o conhecimento e crenças atuais distorcem nossas memórias do passado (como quando nos lembramos de atitudes passadas sob a ótica de nossas atuais atitudes). Já o pecado do tipo intrusão de memórias, denominado persistência (7), seriam recordações indesejadas que nós não conseguimos nunca esquecer (como as memórias traumáticas de uma guerra).

E, repare bem, essa é só uma das listas. 😱 Há diversos outros “pecados” da memória sendo cometidos constantemente 🤯. Vou lhes explicar futuramente sobre outros erros 😉

Até lá, vocês podem consultar a referencia bibliográfica logo abaixo para saberem mais. Mas só se vocês quiserem 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

SCHACTER, Daniel L.; CHIAO, Joan Y.; MITCHELL, Jason P. The seven sins of memory: implications for self. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 1001, n. 1, p. 226-239, 2003.