Publicado em Falhas de memória, Funcionamento da memória

Memória e o efeito de foco na arma (parte 2)

Continuando a postagem anterior: Memória e o efeito de foco na arma (parte 1), há várias tentativas de explicação para o efeito de foco na arma. Se você ainda não leu a primeira parte da postagem, dê uma olhadinha 😉


Por uma outra via de explicação, algum objeto (uma arma, por exemplo) que não é comum dentro do esquema que representa aquele cenário passa a demandar um maior processamento 🧠 e como consequência os demais detalhes periféricos “acabam por serem enfraquecidos”.

Imagine a cena, você está em uma cafeteria e de repente aparece um homem ameaçando matar um refém se não lhe derem dinheiro. No entanto, para a sua surpresa,  esse refém é um perturbado ganso canadense 😯. Acredite você ou não, isso aconteceu no Canadá e dado o absurdo da situação, as pessoas aparentemente gastaram mais tempo prestando atenção no ganso do que no ladrão 🤯.

grayscale photography of duck on water
Photo by Kevin Bidwell on Pexels.com

Pesquisas 🔍 têm demonstrado que nós tendemos a prestar mais atenção em objetos que são importantes ou tenham algum valor informacional para nós. Quando nós somos surpreendidos, por objetos inesperados nosso foco atencional 🛎 é direcionado para esse objeto e consequentemente as outras informações acabam sendo processadas como que em segundo plano.

De acordo com hipótese de itens não-usuais (unusual item hypothesis), as armas são consideras objetos incomuns em muitos contextos e, consequentemente, não são compatíveis com as nossas expectativas relacionadas aquele contexto. Como consequência da tentativa do nosso cérebro de resolver esse conflito de expectativa, os detalhes periféricos (como o rosto do perpetrador) acabam por não serem adequadamente registrados e acabamos por ter dificuldade em relembrá-los mais tarde 😓.

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica principal utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

FAWCETT, Jonathan M. et al. Of guns and geese: A meta-analytic review of the ‘weapon focus’ literature. Psychology, Crime & Law, v. 19, n. 1, p. 35-66, 2013.

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Memória e o efeito de foco na arma (parte 1)

Muitas pessoas acreditam que nossa memória funcione como uma espécie de máquina filmadora 📹 📷 e que nos lembraremos de algo simplesmente porque aquilo é algo importante, porém, a realidade está longe disso. Um efeito de memória curioso que têm despertado atenção de pesquisadores já a algum tempo é o chamado efeito foco na arma (weapon focus no inglês) 🔫. Mas o que seria isso?

Talvez você já conheça alguém ou até mesmo já passou por um assalto à mão armada (por exemplo) :(, e quando precisou dar o testemunho e dizer sobre os detalhes do ocorrido enfrentou certa dificuldade de contar os detalhes periféricos à arma (por exemplo características do local, características da pessoa portanto a arma, dentre outras) 😟 . Essa dificuldade é comum e sua ocorrência pode estar, em parte, relacionada a esse efeito. Mas como isso acontece? 🤔 

pessoa segurando uma arma de  plástico branco
Photo by cottonbro on Pexels.com

Há várias tentativas de explicação para esse efeito e vamos falar sobre elas nessa e nas próximas postagens. Uma dessas hipóteses está ligada ao nível de alerta e à atenção. Pesquisas 🔍 têm sugerido que esse efeito poderia ser uma espécie de efeito colateral do foco atencional diferenciado ocasionado pelo alto nível de alerta relacionado à situação. Quando acontece um assalto à mão armada (por exemplo), a nossa atenção é capturada pela arma devido aos riscos envolvidos e, em decorrência, os detalhes ao redor podem ficar “um tanto quanto desfocados” 😰.

O que “gravamos” 📝 em nossa memória é fortemente dependente do nosso foco atencional! 👀 Até é possível que registremos e recordemos algo que prestamos pouca atenção ou mesmo prestamos nenhuma atenção consciente, todavia esse registro é, constantemente, mais fraco e mais sujeito à erros e omissões. E esses erros e omissões de memória podem ter consequências sérias dependo do contexto (falaremos sobre isso em postagens futuras 😉 ).

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica principal utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

FAWCETT, Jonathan M. et al. Of guns and geese: A meta-analytic review of the ‘weapon focus’ literature. Psychology, Crime & Law, v. 19, n. 1, p. 35-66, 2013.

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Os sete “pecados” da memória

Tendemos a acreditar e somos socialmente cobrados a ter uma memória imbatível, armazenando uma infinidade de informações e recordando-as sem erros ou omissões, não é mesmo? 🤔 No entanto, infelizmente 😥, a nossa memória não funciona assim. Em nosso dia a dia mesmo coisas muito banais podem com frequência resultar em erros ou experiências de memórias abaixo do esperado 😮. Tais falhas podem ocasionar impactos diversos desde leves (como confundir uma informação e esquecer algo sem grandes implicações) até impactos mais graves como no âmbito jurídico/penal em que falhas podem resultar em falsos testemunhos e na condenação de pessoas inocentes 😟.

O artigo de Schacter, Chiao e Mitchell (2003) nos informa sobre sete “pecados” da memória e suas implicações para o self (você pode conferir o artigo nas referências ao final do post, mas só se você quiser 😉 ). Três desses sete “pecados” são referentes a tipos de esquecimento (a transitoriedade; a distração; o bloqueio), três a diferentes tipos de distorções (atribuição incorreta, a sugestionabilidade; o viés) e um referente a intrusão de memórias (a persistência). Vamos conhecer rapidinho sobre cada um deles 🔍?

Foto por Nathan Cowley em Pexels.com

Os “pecados” do esquecimento são: 1) a perda da acessibilidade da recordação ao longo do tempo (como o simples esquecer de eventos de um passado distante); 2) os lapsos de atenção que resultam em esquecimento (como o esquecer da localização de suas chaves); 3) o bloqueio temporário de recordações (como o fenômeno ponta da língua). Já os “pecados” de distorção seriam: 4) a atribuição incorreta de memória a uma fonte (como confundir um sonho como uma memória de algo que realmente aconteceu); 5) a implantação de memórias sobre coisas que nunca aconteceram (através do uso de questões sugestivas que podem resultar em fenômenos de falsas memórias, por exemplo) e ; 6) o viés, em que o conhecimento e crenças atuais distorcem nossas memórias do passado (como quando nos lembramos de atitudes passadas sob a ótica de nossas atuais atitudes). Já o pecado do tipo intrusão de memórias, denominado persistência (7), seriam recordações indesejadas que nós não conseguimos nunca esquecer (como as memórias traumáticas de uma guerra).

E, repare bem, essa é só uma das listas. 😱 Há diversos outros “pecados” da memória sendo cometidos constantemente 🤯. Vou lhes explicar futuramente sobre outros erros 😉

Até lá, vocês podem consultar a referencia bibliográfica logo abaixo para saberem mais. Mas só se vocês quiserem 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

SCHACTER, Daniel L.; CHIAO, Joan Y.; MITCHELL, Jason P. The seven sins of memory: implications for self. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 1001, n. 1, p. 226-239, 2003.