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Animais não-humanos tem memória episódica?

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Hoje  vamos conversar sobre a capacidade de outros animais 🦧 🦉 🐹 🐂 de possuírem um tipo bem específico de memória, as episódicas. Então, antes de ler essa postagem, recomendo dar uma olhadinha 👀 nas postagens “Seriam nossas memórias parecidas ou de vários tipos diferentes?” e, em especial, Memórias de longa duração: episódicas e semânticas. Então vamos, lá?

As investigações 🔎 de memórias episódicas com animais não-humanos costumam ser bem mais difíceis do que com humanos, afinal não temos as mesmas capacidades de linguagem 😕. Como não dá para nos entendermos verbalmente 🗣, as pesquisas de memórias com animais não-humanos têm de ser realizadas de maneira não-verbal com tarefas bem elaboradas, obtendo evidências, muitas vezes, indiretas.

Estudos com animais não-humanos tem utilizado a definição de memória episódica como uma espécie de recordação para quando e onde um evento ocorreu; para a ordem de ocorrência de eventos ou uma recordação do animal sobre o seu próprio comportamento (avaliado, por exemplo, pela capacidade de repetição de um comportamento recente através de um comando de repetição 🔂). Mas e então, os animais têm memória episódica?

two gray lemurs sitting on wooden surface
Photo by Anthony on Pexels.com

Nenhuma das pesquisas avaliadas pela revisão de Hampton e Schwartz (2004) foi capaz de demonstrar que animais não-humanos possuem capacidades generalizadas de memória episódicas como os humanos 🤔. O que tem sido encontrado é algumas espécies com capacidades bem especificas, como orientação para o passado e capacidade de recordar livremente. Como não temos evidências diretas 🗣 de que esses animais se lembram de um passado pessoal, essas capacidades têm sido referidas como parecidas/similares a memórias episódicas. É possível que descubramos animais não-humanos com capacidades de memória episódica mais próximas à nossa? 🤔

Sim, mas isso depende da melhoria de nossas capacidades de realizar avaliações de memória episódica de maneiras não-verbais, de possíveis redefinições do conceito e, especialmente, da preservação da nossa fauna 🐆 🦧 🦜 e da realização de novas pesquisas 🔎.

Por hoje é só! Na próxima postagem, trarei um exemplo de um animal que tem demostrado intrigantes capacidades de memória episódica. Você pode conferir a referência acadêmica utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋

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Referência bibliográfica:

HAMPTON, Robert R.; SCHWARTZ, Bennett L. Episodic memory in nonhumans: what, and where, is when?. Current Opinion in Neurobiology, v. 14, n. 2, p. 192-197, 2004.

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Inocentes presos no Brasil: quem são? Como e por que foram e/ou continuam presos?

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Inocentes Presos, esse é o nome da série especial da Folha que busca traçar radiografia das prisões injustas no nosso país e colocar em evidência as injustiças e suas vítimas. Vítimas essas, que conforme apuração realizada por um ano, “são em sua maioria negros e, quase em sua totalidade, pobres”. “Pessoas que tiveram suas vidas interrompidas por até duas décadas foram atiradas de volta à sociedade sem pedidos de desculpas após o reconhecimento dos erros e ficaram marcadas pelo preconceito e pelo medo de voltarem ao inferno.” ❗ 😡 

O trabalho 🔍, importantíssimo, da Folha foi realizado durante 12 meses e começou a ser divulgado no dia 24 de maio desse ano. Em seu levantamento, foram analisados 🔍 cem casos de inocentes encarcerados, realizado diagnóstico dos principais erros que elevaram a essas prisões de inocentes e, contadas as histórias dessas cem pessoas. O levantamento realizado aponta casos em todo o país 🇧🇷, porém as análises abarcaram mais casos de São Paulo (sede do grupo Folha). As principais causas das prisões injustas foram reconhecimentos realizados de maneira irregular, na contramão das recomendações dos estudos da Psicologia do Testemunho e do próprio Código de Processo Penal Brasileiro. 😟 🤯

Ressalto que embora a série do grupo Folha se concentre nos cem casos levantados, o número é apenas uma pequena amostragem da quantidade real de inocentes condenados, pois, conforme apontam as reportagens, há falta de transparência das nossas instituições e os erros ocorridos nessas condenações injustas não são reconhecidos oficialmente. 😱

Deixo aqui, o meu convite para que você veja a série de reportagens, os vídeos 🎞  relacionados à série e veja 👀, também, as histórias das pessoas inocentes que foram condenadas injustamente:

🔗 Falhas em reconhecimento alimentam máquina de prisões injustas de negros e pobres no Brasil

🔗 Sem investigação, inquéritos de 24 horas turbinam prisões de inocentes em SP

🔗 Sem banco de dados unificado, Brasil ainda prende inocentes por erro em identificação

🔗 Condenado apenas com base em delação desmentida, trabalhador rural segue preso há sete anos em SP

🔗 Vítimas de prisões injustas têm indenizações negadas, prejuízo financeiro e sequelas psicológicas

❗ Playlist da série no YouTube: https://www.youtube.com/playlist?list=PLEU7Upkdqe7GsmLbj7xn_J3cFLl8-GdZz

📌 Veja cem histórias de prisões injustas no país

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Memórias flashbulb e falsas memórias

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Talvez você tenha alguma recordação vívida do 11 de Setembro de 2001 ou da explosão da espaçonave Challenger 🚀 ou talvez você seja muito novo(a)👶 para se lembrar de algum desses eventos. É comum encontrarmos pessoas que dizem terem recordações bem vívidas sobre pelo menos um desses eventos (especialmente se você for estadunidense e um pouquinho mais velho). Essas pessoas, também, dizem ter alta confiança  ☑︎  nas recordações relacionadas a esses eventos e alguns até chegam a dizer que são coisas que eles nunca esquecerão. Mas será mesmo? E que tipo de memória é esse? 🤔  

Esse tipo de recordação é também conhecido como flashbulb memories (algo como memórias em flash 📸 em uma tradução mais livre para o nosso português). Essas memórias envolvem eventos públicos (como assassinatos famosos, grandes eventos e desastres nacionais) que nos são comunicados por terceiros e para os quais formamos uma memória autobiográfica (i.e., memórias que envolvem o próprio indivíduo que as conta) sobre as circunstâncias relacionadas ao conhecimento desses eventos. Elas não são, contudo, memórias formadas por termos experienciado em “primeira mão” os eventos ou sobre os fatos envolvidos nessas memórias (por exemplo: a Challenger 🚀 explodiu pouco mais de um minuto após sua decolagem). Embora a maioria dos estudos realizados investiguem eventos públicos negativos, há alguns que investigam eventos considerados, em geral, positivos.

Team Teamwork Brainstorming Hand  - geralt / Pixabay
geralt / Pixabay

As memórias flashbulb são caracterizadas pela alta confiança ☑︎ que persiste mesmo que a consistência do relato de memória entre em declínio, ou seja, as pessoas permanecem altamente confiantes nas suas recordações relacionadas às memórias flashbulb mesmo que com o passar do tempo vários erros, omissões e inconstâncias no relato de memória apareçam 😟. Isso ocorre de maneira diferente com as nossas memórias autobiográficas “cotidianas” que têm sua confiança de relato afetada junto com a consistência desses relatos. Mas por que isso ocorre? 🤔

A natureza complexa do aprendizado de eventos públicos reais dificulta a realização de  estudos em laboratórios 🔍🧩. Devido a essa natureza pode haver uma ampla gama de diferenças individuais em como os mecanismos relacionados podem ser acionados 🤯. No entanto, algumas tentativas de explicação têm sido propostas como a sua relação com a identidade social (as pessoas ficam mais confiantes em suas memórias flashbulb quando sentem um vínculo social com as figuras centrais envolvidas nessa memória); a vivacidade e grau de elaboração do evento e; a extensão das “repetições” 🔁 do evento relacionadas à atenção midiática 📻 📺 🎞 🎬.  A cobertura midiática 📺 do evento é um fator importante porque a mídia garante uma exposição extensa ⏳ e ampla e, ao fazer isso, pode homogeneizar eventuais diferenças individuais na forma como o evento é processado e recordado.

Portanto, as memórias flashbulb são aquelas memórias autobiográficas, relacionadas à eventos públicos, em que nós nos mantemos altamente confiantes da veracidade de seus detalhes apesar da queda da acurácia e consistência desses detalhes ao longo do tempo 📌. Logo, em relatos de memórias flashbulb é mais comum a manifestação de falsas memórias com alta confiança ❗ 😱 

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica principal (um artigo de revisão) utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

HIRST, William; PHELPS, Elizabeth A. Flashbulb Memories. Current directions in psychological science, v. 25, n. 1, p. 36, 2016.

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Memórias de longa duração: episódicas e semânticas

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Hoje vamos retomar as divisões da memória, nossa primeira postagem sobre o tema foi Seriam nossas memórias parecidas ou de vários tipos diferentes?. Para poder acompanhar melhor essa postagem, recomendo dar uma visitada na postagem linkada 🔗 antes 😉

Relembrando uma das divisões importantes 🔖: as memórias podem ser divididas entre memórias de curto e longo prazo. As memórias de longo prazo são aquelas que conseguem permanecer conosco por mais tempo (minutos, horas, meses, décadas) e podem ser subdivididas entre memórias declarativas (que são conscientes e que conseguimos contar para uma outra pessoa com certa facilidade 🗣️) e as não-declarativas que são difíceis de colocarmos em palavras (como por exemplo, relatar como andar de bicicleta 🚴🏽‍♂️ ou dirigir um carro 🚗).

Dentro das memórias declarativas, ainda há uma outra subdivisão 🤯: memórias episódicas (relacionada à eventos e experiências) e e semânticas (relacionada à fatos e conceitos)? Mas o que seria isso? 🤔

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A memória episódica está relacionada com a retenção de eventos específicos situados no tempo e espaço, ligados à uma espécie de senso de que o evento relembrado ocorreu da forma como foi recordado e de que foi vivenciado em primeira pessoa 🤯. Alguns exemplos dessas memórias são: o nascimento de um filho(a), um pedido de novado/casamento,  o próprio casamento, recordações de viagens, recordações de saídas com os amigos(as), dentre outras. Em resumo, as memórias que consideramos mais importantes para nós 🤗

Já a memória semântica é a responsável pela acumulação de conhecimento do mundo, São exemplos delas: o significado das palavras, atributos sensoriais (como cheiro, gosto, cor), e conhecimentos gerais 📚📜. São memórias também importantes, mas que não são situadas no tempo e no espaço, ou seja, temos muitas dificuldades de conseguir dizer quando e onde as adquirimos 🤔.

As memórias episódicas e semânticas, porém, não são completamente isoladas, hoje sabe-se que  elas podem interagir entre si. Voltaremos a esse assunto em futuras postagens 😉

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir as referências acadêmicas utilizadas para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso aos artigos em pdf utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente nas referências 😉.

Até breve 👋


Referências bibliográficas:

SQUIRE, Larry R. Declarative and nondeclarative memory: Multiple brain systems supporting learning and memory. Journal of cognitive neuroscience, v. 4, n. 3, p. 232-243, 1992.

TULVING, Endel. Episodic memory: From mind to brain. Annual review of psychology, v. 53, n. 1, p. 1-25, 2002.

RODRIGUES, Gabriela Santos; JAEGER, Antônio. O uso de tarefas experimentais para o estudo da memória episódica. Ciências & Cognição, v. 23, n. 1, p. 80-90, 2018.

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Seriam nossas memórias parecidas ou de vários tipos diferentes?

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Você sabia que existem diversos tipos de memória? E que existem diversas formas de classificarmos as memórias? 🤔

Uma das formas de classificação mais simples de memória é a divisão entre memórias de longo prazo e memória de trabalho (ou memória operativa). Você deve estar se perguntando, como assim memória de trabalho? 🤔 Te garanto que é bem fácil de entender! 😉 A memória de trabalho é de curta duração, muito dependente da manutenção da atenção, e tem seus conteúdos fácil e rapidamente esquecidos. Sabe quando uma pessoa que você não conhece te fala o nome e não passa nem 5 minutos e você já esqueceu 😞 e acaba ficando com vergonha de perguntar o nome dela de novo 😳? Ou quando estamos lendo uma frase em um livro e alguém nos interrompe e ficamos com dificuldade de lembrar exatamente o que estávamos lendo? Nessas situações nós utilizamos a memória de trabalho de forma a guardar e manipular informações de forma temporária. É um sistema bastante limitado e diferente do das memórias de longo prazo, porém essencial. Imagine só como seria ler um livro ou mesmo essa postagem sem poder utilizar a memória de trabalho… Não seria possível entender absolutamente nada! 🤯

As memórias de longo prazo são aquelas que conseguem permanecer conosco por maior tempo (minutos, horas, meses, décadas) e esse tipo de memória é menos dependente da atenção e menos limitada. Elas se subdividem em memórias não-declarativas e declarativas. Sendo as declarativas aquelas que conseguimos facilmente relatar 😀, são os fatos (todo o conhecimento que você tem 🧠📚) e eventos de que nos lembramos 🌠🛫. Já as não-declarativas são um pouco mais complicadas, nós não conseguimos relatá-las com facilidade 🤐 e muitas vezes sequer temos consciência delas 😕.

Foto por Luizmedeirosph em Pexels.com

As memórias não-declarativas se subdividem em 1) memórias procedimentais (nosso conhecimentos de habilidades e nossos hábitos); 2) priming; 3) condicionamentos simples e condicionamentos emocionais; 4) não-associativas (como reflexos). Não se preocupe, vamos explicar todos esses subtipos em futuras postagens. 😉

São muitos tipos e subtipos não é mesmo😱? Mas não se preocupe, voltaremos a conversar sobre os tipos de memória e, especialmente, sobre os subtipos novamente para podermos explicar tudo com mais detalhes e revelarmos algumas curiosidades… tudo em futuras postagens ;). Mas se você estiver muito ansioso para saber já logo, você pode dar uma conferida nos nossos artigos de referência ao final da postagem, mas só se você quiser 😉

Até breve 👋


Referências bibliográficas:

SQUIRE, Larry R. Memory systems of the brain: a brief history and current perspective. Neurobiology of learning and memory, v. 82, n. 3, p. 171-177, 2004.

SQUIRE, Larry R.; DEDE, Adam JO. Conscious and unconscious memory systems. Cold Spring Harbor perspectives in biology, v. 7, n. 3, p. a021667, 2015.