Publicado em Falhas de memória, Tipos de memórias

Memórias flashbulb e falsas memórias

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Talvez você tenha alguma recordação vívida do 11 de Setembro de 2001 ou da explosão da espaçonave Challenger 🚀 ou talvez você seja muito novo(a)👶 para se lembrar de algum desses eventos. É comum encontrarmos pessoas que dizem terem recordações bem vívidas sobre pelo menos um desses eventos (especialmente se você for estadunidense e um pouquinho mais velho). Essas pessoas, também, dizem ter alta confiança  ☑︎  nas recordações relacionadas a esses eventos e alguns até chegam a dizer que são coisas que eles nunca esquecerão. Mas será mesmo? E que tipo de memória é esse? 🤔  

Esse tipo de recordação é também conhecido como flashbulb memories (algo como memórias em flash 📸 em uma tradução mais livre para o nosso português). Essas memórias envolvem eventos públicos (como assassinatos famosos, grandes eventos e desastres nacionais) que nos são comunicados por terceiros e para os quais formamos uma memória autobiográfica (i.e., memórias que envolvem o próprio indivíduo que as conta) sobre as circunstâncias relacionadas ao conhecimento desses eventos. Elas não são, contudo, memórias formadas por termos experienciado em “primeira mão” os eventos ou sobre os fatos envolvidos nessas memórias (por exemplo: a Challenger 🚀 explodiu pouco mais de um minuto após sua decolagem). Embora a maioria dos estudos realizados investiguem eventos públicos negativos, há alguns que investigam eventos considerados, em geral, positivos.

Team Teamwork Brainstorming Hand  - geralt / Pixabay
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As memórias flashbulb são caracterizadas pela alta confiança ☑︎ que persiste mesmo que a consistência do relato de memória entre em declínio, ou seja, as pessoas permanecem altamente confiantes nas suas recordações relacionadas às memórias flashbulb mesmo que com o passar do tempo vários erros, omissões e inconstâncias no relato de memória apareçam 😟. Isso ocorre de maneira diferente com as nossas memórias autobiográficas “cotidianas” que têm sua confiança de relato afetada junto com a consistência desses relatos. Mas por que isso ocorre? 🤔

A natureza complexa do aprendizado de eventos públicos reais dificulta a realização de  estudos em laboratórios 🔍🧩. Devido a essa natureza pode haver uma ampla gama de diferenças individuais em como os mecanismos relacionados podem ser acionados 🤯. No entanto, algumas tentativas de explicação têm sido propostas como a sua relação com a identidade social (as pessoas ficam mais confiantes em suas memórias flashbulb quando sentem um vínculo social com as figuras centrais envolvidas nessa memória); a vivacidade e grau de elaboração do evento e; a extensão das “repetições” 🔁 do evento relacionadas à atenção midiática 📻 📺 🎞 🎬.  A cobertura midiática 📺 do evento é um fator importante porque a mídia garante uma exposição extensa ⏳ e ampla e, ao fazer isso, pode homogeneizar eventuais diferenças individuais na forma como o evento é processado e recordado.

Portanto, as memórias flashbulb são aquelas memórias autobiográficas, relacionadas à eventos públicos, em que nós nos mantemos altamente confiantes da veracidade de seus detalhes apesar da queda da acurácia e consistência desses detalhes ao longo do tempo 📌. Logo, em relatos de memórias flashbulb é mais comum a manifestação de falsas memórias com alta confiança ❗ 😱 

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica principal (um artigo de revisão) utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

HIRST, William; PHELPS, Elizabeth A. Flashbulb Memories. Current directions in psychological science, v. 25, n. 1, p. 36, 2016.

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Repensando as evidências de testemunhas oculares por meio do DNA

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

Poucas pessoas questionam o fato de que, de maneira geral, quaisquer evidências forenses podem ser contaminadas, no entanto, pouca ou nenhuma providência é tomada para a preservação de testemunhos de memória 🤔. No caso de evidências de DNA, casos de contaminação e de condenação indevida de inocentes são raras, devido ao cuidado rígido para se evitar contaminações e aos padrões estritos de interpretação dessas evidências 📌. Infelizmente, isso geralmente não ocorre com testemunhas oculares e o número de condenações indevidas de inocentes relacionada a esse tipo de evidência é grande 😟 (Vale a apena dar uma olhadinha 👀 nesse post 😉: “O DNA da justiça, o Innocence Project e os testemunhos).

Diferentemente das evidencias de DNA, em que a possibilidade de contaminação é conhecida até mesmo pelo público leigo, as evidencias de testemunhos oculares são geralmente tomados como uma recordação precisa de um registro realizado com semelhante precisão 📹 📷  (como uma gravação de uma câmera, que pode ser reproduzido a qualquer momento sem falhas 🔗). No entanto, como já discutimos em postagens passadas, nossas memórias estão sujeitas à inúmeras falhas, intrusões e omissões (veja “Os sete pecados da memória”, para ter uma ideia) 🤯. Portanto, diversas mudanças têm de ser realizadas à nível procedimental, instrucional e institucionais para que tais evidências sejam utilizadas de acordo com as suas reais potencialidades e limitações (tratamos do assunto na referência em português ao final desse post 🔍). É importante ter em mente que o fato de uma evidência ser suscetível a contaminações não torna essa evidência automaticamente inutilizável, mas significa que essa evidência só é adequada se não foi suficientemente comprometida por contaminações ❗

Dna Genetics Molecule Biology  - liyuanalison / Pixabay
liyuanalison / Pixabay

 Um aspecto interessante das provas de DNA 🧬 é que os resultados das testagens podem ser inconclusivos mesmo que a evidência não seja contaminada e que procedimentos de testagem adequados sejam seguidos. E isso pode acontecer por uma série de motivos, como degradação do DNA (de forma que apenas uma parte do perfil genético é obtido). Evidências de DNA costumam acompanhar um indicador do quão definitiva é a evidência (i.e., a chance daquela evidência genética corresponder ao DNA do suspeito). No caso dos testemunhos, infelizmente, não costuma ser bem aceito que a testemunha apresente dúvidas quanto ao suspeito e/ou que seu testemunho seja inconclusivo 😟. Isso é bastante prejudicial pois o testemunho deve ser apenas uma das evidências para uma investigação/condenação e não a única 🔍🧩. Para testemunhos, pesquisadores referências na área  (como Wixted, Laura Mickes e  Fisher), têm defendido a utilização da confiança como um equivalente do indicador probabilístico do DNA 🧭. Nesse caso, a confiança só é informativa se registrada durante o primeiro testemunho do depoente (veja a nossa discussão sobre o assunto nos posts “A questão da confiança e os testemunhos oculares” e “A questão da confiança e os testemunhos oculares: Vale a inicial?”).

Portanto, podemos utilizar testemunhos de memória, com segurança, quando medidas foram tomadas para controlar a contaminação das evidências, procedimentos adequados são seguidos e tomando a confiança inicial da testemunha (quanto ao ocorrido) em consideração ❗📌

Voltamos em breve! 😉 Na nossa referência em português, vocês encontrarão lá uma discussão mais aprofundada, além de avaliações e sugestões relacionadas a essas questões levando em consideração a situação do sistema de justiça criminal brasileiro. Já na nossa referência em inglês vocês encontrarão uma discussão aprofundada sobre a confiabilidade dos testemunhos (e mais detalhes sobre a analogia com as evidências de DNA). Você consegue ter acesso aos artigos em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referências bibliográficas:

SOUSA, Weslley Santos; DE FARIA SANTOS, Matheus Philippe; JAEGER, Antônio. Aspectos teóricos e implicações práticas da conformidade de memória: uma revisão. Revista Psicologia em Pesquisa, v. 14, n. 3, p. 152-172, 2020.

WIXTED, John T.; MICKES, Laura; FISHER, Ronald P. Rethinking the reliability of eyewitness memory. Perspectives on Psychological Science, v. 13, n. 3, p. 324-335, 2018.

Publicado em Falhas de memória, Funcionamento da memória, Memória e testemunho

A questão da confiança e os testemunhos oculares: Vale a inicial?

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Nessa nova postagem continuaremos a falar sobre a questão da confiança, dentro da nossa série de postagens sobre a questão do testemunho e da memória 📝. A postagem inicial da série é “O DNA da justiça, o Innocence Project e os testemunhos” e a postagem subsequente é sobre “A questão da confiança e os testemunhos oculares”. Vale a pena você dar uma olhadinha lá 👀 e pegar a indicação de uma série 🎬 do Netflix relacionada à temática 😉

 Como te informamos na postagem anterior, tendemos a utilizar expressões de confiança dos nossos interlocutores 💬 como um índice de veracidade ☑ do relato de memória do nosso interlocutor. E nossas instituições e, especialmente, o sistema de justiça criminal tendem a fazer forte uso tanto de testemunhos de memória quanto da confiança, o que tem levado à problemas como as condenações indevidas de inocentes❗ Entretanto, ainda que desejássemos é muitas vezes inviável deixarmos de utilizar relatos de memória e , mesmo, relatos de expressões de confiança dos nossos interlocutores 💬 em nosso dia a dia e instituições. No entanto, podemos e devemos tomar medidas e precauções quanto a essa utilização, especialmente quando essa utilização pode vir associada à altos custos em quaisquer esferas (individual, coletiva, financeira, etc.)❗

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Photo by Nathan Cowley on Pexels.com

Tem sido apontado que devemos tomar uma série de precauções com as evidências de memória. Como qualquer outra evidência criminal, elas devem ser coletadas, preservadas e analisadas com um grau mínimo de rigor 📌. Especificamente sobre a questão da confiança, já há uma espécie de consenso de há uma relação positiva entre a confiança expressa por uma testemunha e o desempenho de reconhecimento 📄 . Porém, essa relação é boa apenas quando consideramos o relato de confiança inicial da testemunha (veja o artigo de Wixted e colaboradores indicado nas recomendações para uma discussão aprofundada 🔍) e quando coletado sem que ocorram induções da testemunha 🧭.

Lembro você, aqui, que nossas memórias são maleáveis e a repetição de uma informação e/ou contato com diferentes fontes de relatos tende a gerar alterações/intrusões/omissões em nossas memórias e consequentemente nos nossos relatos subsequentes daquela recordação 😱 🤯. Portanto, é de suma importância que seja registrado o testemunho e o(s) relato(s) de confiança da testemunha nas informações prestadas 📌. Esse relato deve ser registrado e preservado, preferencialmente em formato audiovisual 📹 (embora outros registros também sejam válidos, úteis e possam ser utilizados 📝), de forma que possa ser facilmente reproduzido e consultado posteriormente. Dessa forma podemos mais facilmente evitar/detectar uma parte de más práticas e, também, obtermos uma menor taxa de condenações de inocentes e um sistema de justiça criminal mais confiável. ⚖

Voltamos em breve! 😉 Além do artigo de Wixted e colaboradores, deixo para vocês uma referência em português relacionada à temática. Vocês encontrarão na referência em português uma discussão mais aprofundada, além de avaliações e sugestões relacionadas a essas questões levando em consideração a situação do sistema de justiça criminal brasileiro. Você consegue ter acesso aos artigos em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

SOUSA, Weslley Santos; DE FARIA SANTOS, Matheus Philippe; JAEGER, Antônio. Aspectos teóricos e implicações práticas da conformidade de memória: uma revisão. Revista Psicologia em Pesquisa, v. 14, n. 3, p. 152-172, 2020.

WIXTED, John T. et al. Initial eyewitness confidence reliably predicts eyewitness identification accuracy. American Psychologist, v. 70, n. 6, p. 515, 2015.

Publicado em Falhas de memória, Funcionamento da memória, Memória e testemunho

A questão da confiança e os testemunhos oculares

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Como prometido, publicaremos uma série de postagens sobre a questão do testemunho e da memória 📝. A postagem inicial da série é O DNA da justiça, o Innocence Project e os testemunhos. Vale a pena você dar uma olhadinha lá 👀 e pegar a indicação de uma série 🎬 do Netflix relacionada à temática 😉

Uma questão importante que gerou inúmeros estudos e debates ao longo das últimas décadas é a relação entre a veracidade de testemunhos oculares e o grau de confiança expresso pela testemunha. No nosso dia a dia, tendemos a utilizar expressões de confiança dos nossos interlocutores 💬 como um índice de veracidade ☑ do relato de memória do nosso interlocutor. Nossas instituições e, especialmente, o sistema de justiça criminal também tendem a fazer forte uso tanto de testemunhos de memória quanto da confiança como um indicador da veracidade desses relatos ❗ Esse uso, especialmente quando acompanhado de más práticas diversas, pode ter consequências sérias (como o encarceramento e morte de inocentes) 😟.

Conforme relatamos em nossa postagem inicial sobre a temática dos testemunhos, uma grande quantidade de inocentes foi condenada com a utilização de testemunhos de alta confiança emitidos durante os julgamentos ☹. Essas condenações destroem a vida do inocente e, de familiares e pessoas próximas a ele, além de impossibilitarem que os verdadeiros culpados sejam punidos e a justiça seja feita ⚖.

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Photo by Anastasiya Vragova on Pexels.com

Talvez você esteja se perguntando, mas por que exatamente ocorrem esses problemas? 🤔 Infelizmente, nossa memória não é como uma máquina filmadora ou fotográfica 📹 📷 e nossas recordações estão sujeitas a influências internas e externas das mais diversas 🤯. Vou te dar alguns exemplos: à cada vez que uma memória é contada, tendemos a expressar maior confiança sobre o que estamos dizendo; se uma outra pessoa, veículo (como os de imprensa) ou instituições nos contam uma história (e especialmente se a “repetem” ao longo do tempo e/ou contam a história variando os formatos) tendemos a apresentar recordações sobre aquele evento mais homogêneas com o que está sendo mais repetido/enfatizado 😱. Imagine os efeitos disso para crimes de alta repercussão (por exemplo): ao longo do tempo até o dia do julgamento (especialmente considerando a lentidão que geralmente o processo todo leva) há uma infinidade de oportunidades de modificação da memória da testemunha e da confiança dela nessa recordação❗ Isso para ficar só em poucos exemplos 🤯. Ao longo das próximas postagens trarei mais exemplos e discutirei em mais detalhes essas problemáticas. 😉 Por hoje, ficamos por aqui.

Voltamos em breve! 😉 Hoje, deixo para vocês uma referência em português relacionada à temática. Vocês encontrarão lá uma discussão mais aprofundada, além de avaliações e sugestões relacionadas a essas questões levando em consideração a situação do sistema de justiça criminal brasileiro. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência:

SOUSA, Weslley Santos; DE FARIA SANTOS, Matheus Philippe; JAEGER, Antônio. Aspectos teóricos e implicações práticas da conformidade de memória: uma revisão. Revista Psicologia em Pesquisa, v. 14, n. 3, p. 152-172, 2020.