Publicado em Falhas de memória, Funcionamento da memória, Memória e testemunho

Manipulando e inflando a confiança de reconhecimento

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

Seria possível inflar a confiança no reconhecimento? 🤔 Como isso poderia ser feito em  laboratório? 🤔 Um conjunto de experimentos publicados por Smalarz e Wells (2020) mostraram que sim! Não é novidade que a confiança é uma questão problemática, e já abordamos isso em várias postagens aqui no blog (como A questão da confiança e os testemunhos oculares; A questão da confiança e os testemunhos oculares: Vale a inicial?; Repensando as evidências de testemunhas oculares por meio do DNA). A questão da confiança é especialmente, mas não apenas, problemática na esfera judiciário-criminal ⚖ (pense no caso das fake e  junk news por exemplo 😉) já que a confiança que as pessoas expressam em suas recordações é utilizadas informalmente e formalmente como uma espécie de índice de acurácia dessas memórias (veja nossa postagem 🔗 A questão da confiança e os testemunhos oculares: Vale a inicial? para mais detalhes). Mas o que o trabalho de Smalarz e Wells (2020) 🔍 tem de tão interessante? 🤔

O trabalho 🔍 consegue demonstrar através de experimentos bem controlados que múltiplos feedbacks aumentaram, significativamente, mais a confiança no reconhecimento do que apenas uma ou nenhuma dose de feedback 😱🤯. E isso é importante justamente porque no nosso dia a dia nos recebemos várias informações diretas ou indiretas que nos apontam para a possibilidade de estarmos certos quanto a uma recordação ou não. Ao longo do tempo, essas informações/feedbacks podem ir se acumulando ⏳ e gerando distorções a ponto de termos inclusive falsas memórias de alta confiança (veja a nossa discussão da nossa postagem sobre 🔗Memórias flashbulb e falsas memórias 😉). Mas como os pesquisadores do estudo chegaram nesses resultados? 🤔

black spiral staircase
Photo by Axel Vandenhirtz on Pexels.com

Eles fizeram dois experimentos 🔍🧩 nos quais os participantes foram separados em vários grupos que poderiam ou não receber feedbacks sobre suas respostas. Nos dois experimentos os participantes assistiam a um vídeo exibindo um suspeito trocando sua bagagem com a de outro passageiro, logo depois os participantes fizeram uma tarefa de reconhecimento 🆔 (e responderam algumas perguntas) com fotos de seis pessoas que se encaixavam na descrição do suspeito. No primeiro experimento, os participantes poderiam receber feedbacks de reconhecimentos corretos através de outra co-testemunha, um feedback vago do experimentador (do tipo “você foi uma boa testemunha” 💬) e/ou um feedback baseado em inferência (em que a testemunha era levada a acreditar que sua escolha tinha sido correta, manipulando suas expectativas sobre boas testemunhas serem reconvocadas para fazer um novo reconhecimento). No experimento dois, os participantes poderiam receber os feedbacks (dos mesmos tipos) após reconhecimentos incorretos.

O estudo 🔍 sugere que feedbacks múltiplos e repetidos 🔁 podem distorcer índices importantes de reconhecimento, como a confiança (inflando-a). A distorção gerada por esses feedbacks, ao longo do tempo, pode ser uma das explicações para a quebra da relação entre a confiança e a acurácia de memórias observadas, por exemplo, nos testemunhos realizados diante de um juris que geralmente ocorrem muitos meses (ou anos) ⏳ após o ocorrido (para uma discussão mais aprofundada veja a nossa postagem 🔗A questão da confiança e os testemunhos oculares). Por isso, é importantíssimo que evidencias de memória sejam coletadas e preservadas com rigor e que a confiança emitida no testemunho inicial seja utilizada ao longo de todo o processo ❗ (veja a discussão em Repensando as evidências de testemunhas oculares por meio do DNA) 📌.

Por hoje é só pessoal! Voltamos em breve! Você pode conferir a referência acadêmica principal utilizada para a escrita desse post logo abaixo. Você consegue ter acesso ao artigo em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referência bibliográfica:

SMALARZ, Laura; WELLS, Gary L. Do Multiple Doses of Feedback Have Cumulative Effects on Eyewitness Confidence?. Journal of Applied Research in Memory and Cognition, v. 9, n. 4, p. 508-518, 2020.

Publicado em Falhas de memória, Tipos de memórias

Inocentes presos no Brasil: quem são? Como e por que foram e/ou continuam presos?

Tempo estimado de leitura: 2 minutos

Inocentes Presos, esse é o nome da série especial da Folha que busca traçar radiografia das prisões injustas no nosso país e colocar em evidência as injustiças e suas vítimas. Vítimas essas, que conforme apuração realizada por um ano, “são em sua maioria negros e, quase em sua totalidade, pobres”. “Pessoas que tiveram suas vidas interrompidas por até duas décadas foram atiradas de volta à sociedade sem pedidos de desculpas após o reconhecimento dos erros e ficaram marcadas pelo preconceito e pelo medo de voltarem ao inferno.” ❗ 😡 

O trabalho 🔍, importantíssimo, da Folha foi realizado durante 12 meses e começou a ser divulgado no dia 24 de maio desse ano. Em seu levantamento, foram analisados 🔍 cem casos de inocentes encarcerados, realizado diagnóstico dos principais erros que elevaram a essas prisões de inocentes e, contadas as histórias dessas cem pessoas. O levantamento realizado aponta casos em todo o país 🇧🇷, porém as análises abarcaram mais casos de São Paulo (sede do grupo Folha). As principais causas das prisões injustas foram reconhecimentos realizados de maneira irregular, na contramão das recomendações dos estudos da Psicologia do Testemunho e do próprio Código de Processo Penal Brasileiro. 😟 🤯

Ressalto que embora a série do grupo Folha se concentre nos cem casos levantados, o número é apenas uma pequena amostragem da quantidade real de inocentes condenados, pois, conforme apontam as reportagens, há falta de transparência das nossas instituições e os erros ocorridos nessas condenações injustas não são reconhecidos oficialmente. 😱

Deixo aqui, o meu convite para que você veja a série de reportagens, os vídeos 🎞  relacionados à série e veja 👀, também, as histórias das pessoas inocentes que foram condenadas injustamente:

🔗 Falhas em reconhecimento alimentam máquina de prisões injustas de negros e pobres no Brasil

🔗 Sem investigação, inquéritos de 24 horas turbinam prisões de inocentes em SP

🔗 Sem banco de dados unificado, Brasil ainda prende inocentes por erro em identificação

🔗 Condenado apenas com base em delação desmentida, trabalhador rural segue preso há sete anos em SP

🔗 Vítimas de prisões injustas têm indenizações negadas, prejuízo financeiro e sequelas psicológicas

❗ Playlist da série no YouTube: https://www.youtube.com/playlist?list=PLEU7Upkdqe7GsmLbj7xn_J3cFLl8-GdZz

📌 Veja cem histórias de prisões injustas no país

Publicado em Falhas de memória, Memória e testemunho

Repensando as evidências de testemunhas oculares por meio do DNA

Tempo estimado de leitura: 3 minutos

Poucas pessoas questionam o fato de que, de maneira geral, quaisquer evidências forenses podem ser contaminadas, no entanto, pouca ou nenhuma providência é tomada para a preservação de testemunhos de memória 🤔. No caso de evidências de DNA, casos de contaminação e de condenação indevida de inocentes são raras, devido ao cuidado rígido para se evitar contaminações e aos padrões estritos de interpretação dessas evidências 📌. Infelizmente, isso geralmente não ocorre com testemunhas oculares e o número de condenações indevidas de inocentes relacionada a esse tipo de evidência é grande 😟 (Vale a apena dar uma olhadinha 👀 nesse post 😉: “O DNA da justiça, o Innocence Project e os testemunhos).

Diferentemente das evidencias de DNA, em que a possibilidade de contaminação é conhecida até mesmo pelo público leigo, as evidencias de testemunhos oculares são geralmente tomados como uma recordação precisa de um registro realizado com semelhante precisão 📹 📷  (como uma gravação de uma câmera, que pode ser reproduzido a qualquer momento sem falhas 🔗). No entanto, como já discutimos em postagens passadas, nossas memórias estão sujeitas à inúmeras falhas, intrusões e omissões (veja “Os sete pecados da memória”, para ter uma ideia) 🤯. Portanto, diversas mudanças têm de ser realizadas à nível procedimental, instrucional e institucionais para que tais evidências sejam utilizadas de acordo com as suas reais potencialidades e limitações (tratamos do assunto na referência em português ao final desse post 🔍). É importante ter em mente que o fato de uma evidência ser suscetível a contaminações não torna essa evidência automaticamente inutilizável, mas significa que essa evidência só é adequada se não foi suficientemente comprometida por contaminações ❗

Dna Genetics Molecule Biology  - liyuanalison / Pixabay
liyuanalison / Pixabay

 Um aspecto interessante das provas de DNA 🧬 é que os resultados das testagens podem ser inconclusivos mesmo que a evidência não seja contaminada e que procedimentos de testagem adequados sejam seguidos. E isso pode acontecer por uma série de motivos, como degradação do DNA (de forma que apenas uma parte do perfil genético é obtido). Evidências de DNA costumam acompanhar um indicador do quão definitiva é a evidência (i.e., a chance daquela evidência genética corresponder ao DNA do suspeito). No caso dos testemunhos, infelizmente, não costuma ser bem aceito que a testemunha apresente dúvidas quanto ao suspeito e/ou que seu testemunho seja inconclusivo 😟. Isso é bastante prejudicial pois o testemunho deve ser apenas uma das evidências para uma investigação/condenação e não a única 🔍🧩. Para testemunhos, pesquisadores referências na área  (como Wixted, Laura Mickes e  Fisher), têm defendido a utilização da confiança como um equivalente do indicador probabilístico do DNA 🧭. Nesse caso, a confiança só é informativa se registrada durante o primeiro testemunho do depoente (veja a nossa discussão sobre o assunto nos posts “A questão da confiança e os testemunhos oculares” e “A questão da confiança e os testemunhos oculares: Vale a inicial?”).

Portanto, podemos utilizar testemunhos de memória, com segurança, quando medidas foram tomadas para controlar a contaminação das evidências, procedimentos adequados são seguidos e tomando a confiança inicial da testemunha (quanto ao ocorrido) em consideração ❗📌

Voltamos em breve! 😉 Na nossa referência em português, vocês encontrarão lá uma discussão mais aprofundada, além de avaliações e sugestões relacionadas a essas questões levando em consideração a situação do sistema de justiça criminal brasileiro. Já na nossa referência em inglês vocês encontrarão uma discussão aprofundada sobre a confiabilidade dos testemunhos (e mais detalhes sobre a analogia com as evidências de DNA). Você consegue ter acesso aos artigos em PDF utilizando o Google Acadêmico ou clicando diretamente na referência. 😉

Até breve 👋


Referências bibliográficas:

SOUSA, Weslley Santos; DE FARIA SANTOS, Matheus Philippe; JAEGER, Antônio. Aspectos teóricos e implicações práticas da conformidade de memória: uma revisão. Revista Psicologia em Pesquisa, v. 14, n. 3, p. 152-172, 2020.

WIXTED, John T.; MICKES, Laura; FISHER, Ronald P. Rethinking the reliability of eyewitness memory. Perspectives on Psychological Science, v. 13, n. 3, p. 324-335, 2018.